“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.” (Marilena Chaui)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

Política denomina arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa). O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-Estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana.

A política, como forma de atividade ou de práxis humana, está estreitamente ligada ao poder. O poder político é o poder do homem sobre outro homem, descartados outros exercícios de poder, sobre a natureza ou os animais, por exemplo. Poder que tem sido tradicionalmente definido como "consistente nos meios adequados à obtenção de qualquer vantagem" (Hobbes) ou, como "conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados" (Russell).

São várias as formas de exercícios de poder de um indivíduo sobre outro; o poder político é apenas uma delas.

Para Aristóteles a distinção é baseada no interesse de quem se exerce o poder: o paterno se exerce pelo interesse dos filhos; o despótico, pelo interesse do senhor; o político, pelo interesse de quem governa e de quem é governado. Tratando-se das formas corretas de Governo. Nas demais, o característico é que o poder seja exercido em benefício dos governantes.


O PENSAMENTO LIBERAL

O pensamento liberal se baseia à direita do espectro político. O liberalismo tem suas origens na filosofia política de John Locke e nas doutrinas econômicas de Adam Smith e David Ricardo. Se baseia na defesa da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra as ingerências e atitudes coercitivas do poder estatal. Os principais conceitos do pensamento liberal incluem individualismo metodológico e jurídico, liberdade de pensamento, liberdade religiosa, direitos fundamentais, estado de direito, governo limitado, ordem espontânea, propriedade privada, e livre mercado.

Locke

John Locke é um filósofo inglês do século XVII, defensor do contratualismo, doutrina filosófica fundada por Thomas Hobbes, em oposição a doutrina do direito divino dos reis.

O filósofo Thomas Hobbes (1588-1679) afirma que os homens no estado natural (isto é, sem Estado) vivem de forma egoísta, em que uns se jogam contra os outros pelo desejo de poder, da riqueza, de propriedades. Daí a frase: “homo homini lupus”, cada homem é lobo para o seu próximo. Como desta forma eles se destroem uns aos outros, eles necessariamente precisam de um contrato, um contrato para constituir um Estado, um Estado que refreie os lobos, que impeça o desencadear-se dos egoísmos e a destruição mútua.

John Locke (1632-1704) observa que no estado natural o homem está plenamente livre, mas sente necessidade de colocar limites à sua própria liberdade, a fim de garantir a sua propriedade. Acha que a falta de um Estado não garante a propriedade. Insistia em dizer que o Estado é soberano, mas sua autoridade vem somente do contrato que o faz nascer. O seu conceito de Estado é distinto do de Hobbes. Para Hobbes, o contrato gera um Estado absoluto; para Locke, este pode ser desfeito a qualquer momento.

John Locke é considerado o pai do liberalismo. No "Primeiro tratado sobre o governo civil", critica a tradição que afirmava o direito divino dos reis, declarando que a vida política é uma invenção humana, completamente independente das questões divinas. No "Segundo tratado sobre o governo cívil", expõe sua teoria do Estado liberal e a propriedade privada.

A filosofia política de Locke fundamenta-se na noção de governo consentido dos governados diante da autoridade constituída e o respeito ao direito natural do ser humano, de vida, liberdade e propriedade. Influencia, portanto, as modernas revoluções liberais: Revolução Gloriosa Inglesa, Revolução Americana e na fase inicial da Revolução Francesa.

John Locke é considerado como "o último grande filósofo que procura justificar a escravidão absoluta e perpétua"[a*]. Ao mesmo tempo que dizia que todos os homens são iguais, Locke defendia a escravidão (sem distinguir que fosse a relativa aos negros). Locke somente sustenta a escravidão pelo contrato de servidão em proveito do vencido na guerra que poderia ser morto, mas assume o ônus de servir em troca de viver.

ALGUMAS VERDADES SOBRE O PENSAMENTO LIBERAL

O filósofo inglês John Locke pode ser considerado como o marco da democracia liberal. Entretanto o conceito de democracia defendido por Locke e pelos primeiros pensadores liberais, excluia grande parte da população, uma vez que defendiam o voto censitário, ou seja, apenas quem tinha propriedade e pagava impostos podia votar. Estavam excluidos os trabalhadores, os desempregados e as mulheres.

"O liberalismo surge como uma clara posição de limitação do poder do Estado. Em seu início, tinha como inimigo o Estado absolutista. Locke diz que nascemos com direitos naturais, à vida, à liberdade e à propriedade, sobretudo à propriedade, e esses direitos são inalienáveis, o Estado não pode interferir neles. (...)
 
Os regimes liberais originários fundavam-se nessa idéia da liberdade do indivíduo em relação ao Estado e muito pouco na idéia da participação que era restritíssima. Com base no princípio do voto censitário, só votava quem pagava imposto e tinha propriedade. Excluía-se do eleitorado a maioria esmagadora. Kant, um brilhante pensador liberal, dizia que não podiam votar as mulheres, porque não tinham independência de juízo, dependiam do marido ou do pai. E nem os trabalhadores assalariados, porque dependiam do patrão."
 
(Carlos Nelson Coutinho; em Teoria e Debate nº 51)
 

Os trabalhadores e as mulheres precisaram se organizar e lutar, principalmente sobre a inflûencia do pensamento socialista, para conquistar seus direitos. Legalização dos sindicatos e do direito de greve, voto universal, legalização dos partidos operários e populares, jornada de trabalho de oito horas diárias, férias remuneradas, condições dignas de trabalho, etc, foram conquistas da luta do movimento operário.

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de Março, tem origem nas manifestações femininas por melhores condições de trabalho e direito de voto, no início do século XX, na Europa e nos Estados Unidos. A data foi adotada pelas Nações Unidas, em 1975, para lembrar tanto as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres como as discriminações e as violências a que muitas mulheres ainda estão sujeitas em todo o mundo.

O primeiro Dia Internacional da Mulher foi celebrado em 28 de Fevereiro de 1909, nos Estados Unidos da América, por iniciativa do Partido Socialista da América. Em 1910, ocorreu a primeira conferência internacional de mulheres, em Copenhagen, dirigida pela Internacional Socialista, quando foi aprovada proposta da socialista alemã Clara Zetkin, de instituição de um dia internacional da Mulher, embora nenhuma data tivesse sido especificada. No ano seguinte, o Dia Internacional da Mulher foi celebrado a 19 de Março, por mais de um milhão de pessoas, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça.

"A partir de um certo momento, os regimes liberais, pela pressão das massas, começam a incorporar elementos de democracia. O sufrágio universal é um princípio democrático, não liberal. A liberdade de organização, por exemplo, foi proibida nos regimes liberais. A Revolução Francesa proibiu os sindicatos, que só se tornaram legais na França depois da Comuna de Paris. Partidos políticos são também conquistas da classe trabalhadora, que começou a organizar partidos de massa, ligados a movimentos sociais. Podemos hoje falar de uma institucionalidade liberal-democrática, no sentido de que os velhos princípios do liberalismo foram enriquecidos com esses institutos democráticos."
 
(Carlos Nelson Coutinho; em Teoria e Debate nº 51)




[a*] David B. Davis, The Problem of Slavery in the Age of Revolution, 1770-1823 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1975), p. 45, apud Domenico Losurdo, Contra-História do Liberalismo (Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2006 [editado em italiano em 2005]), p. 15.

MATÉRIA DA SEGUNDA SÉRIE

O que é a epistemologia? A resposta é: o ramo da filosofia que se ocupa do conhecimento humano, pelo que também é designada de "teoria do conhecimento". Mas por que temos necessidade de uma teoria do conhecimento? O que há de especial nas investigações filosóficas do conhecimento?

Para responder essas perguntas, devemos apresentar os cinco problemas que a epistemologia busca resolver:

  1. O problema analítico: O que é o conhecimento? (Ou se preferirmos, o que entendemos ou devemos entender por "conhecimento"? Por exemplo, como se distingue (ou se deve distinguir) o conhecimento da simples crença ou opinião? O que aqui se pretende, é uma explicação precisa ou "análise" do "conceito" de conhecimento.
  2. O problema da demarcação: Este divide-se em dois problemas: a) O problema "externo" pergunta: sabendo-se de algum modo o que é o conhecimento, poderemos determinar que coisas podemos razoavelmente esperar conhecer? Ou poderemos determinar o âmbito e os limites do conhecimento humano? Será que há assuntos acerca dos quais podemos ter conhecimento, enquanto há outros acerca dos quais não podemos ter mais do que opinião (ou fé)? b) O problema "interno" pergunta se há fronteiras significativas no interior do domínio do conhecimento. Por exemplo, muitos filósofos têm defendido que há uma distinção fundamental entre o conhecimento a posteriori ou "empírico" e o conhecimento a priori ou "não empírico". O conhecimento empírico depende (de uma forma ou de outra) da experiência ou observação, ao passo que o conhecimento a priori é independente da experiência, fornecendo a matemática o exemplo mais claro. Contudo, outros filósofos negam que se possa fazer tal distinção.
  3. O problema do método: Este relaciona-se com o modo como obtemos ou procuramos conhecimento.
  4. O problema do ceticismo: Será de fato possível obter algum conhecimento? Este problema é difícil porque há argumentos poderosos, alguns bastante antigos, a favor da resposta negativa. Por exemplo, embora o conhecimento não possa assentar em pressupostos brutos, todos os argumentos têm de acabar por chegar ao fim. Parece que, em última análise, as opiniões das pessoas assentam em indícios que elas não podem justificar e não podemos considerar conhecimento genuíno. O problema que aqui se coloca, então, é o de conhecer os argumentos do ceticismo filosófico, a tese que defende a impossibilidade do conhecimento. Uma vez que há uma ligação forte entre conhecimento e justificação, o problema do ceticismo está intimamente ligado ao problema da justificação. 
  5. O problema do valor: Os problemas esboçados são significativos somente se faz sentido possuir conhecimento. Supondo que sim, para que o queremos? Queremo-lo de qualquer forma, ou por causa de determinados objetivos e em determinadas situações? O conhecimento é o único objetivo da investigação, ou há outros com igual (ou maior) importância?
        
Se o conhecimento não tivesse importância, não perderíamos tempo a imaginar como o definir, como o obter, nem a traçar linhas à sua volta. Nem nos interessaria refutar o cético. A preocupação com o conhecimento (ou com realidades afins) está de tal modo enraizada na nossa tradição ocidental que não é opcional. Esta tradição, que nos seus aspectos filosóficos e científicos, tem as suas origens na Grécia clássica, é globalmente e no seu sentido mais lato uma tradição racionalista e crítica. A ciência e a filosofia começam quando as ideias acerca da origem e natureza do universo se separam do mito e da religião e são tratadas como teorias que se podem discutir: isto é, comparadas com (e porventura superadas por) teorias concorrentes. Como observou o filósofo Karl Popper, esta abordagem globalmente racionalista para compreender o mundo pode ser considerada como um tipo de tradição de "segunda ordem": o que conta não são crenças particulares — encaradas como sagradas, ancestrais, e desse modo mais ou menos inquestionáveis — mas a prática do exame crítico das ideias correntes para que se possa reter apenas o que fica depois da inspecção. Ter herdado esta tradição explica a nossa tendência para contrastar conhecimento com preconceito ou com a (simples) tradição.

Fonte: Michael Williams, professor de epistemologia da Universidade de Johns Hopkins.

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917

"O czar era considerado dono de toda a Rússia, e todos os seus súditos deviam servi-lo. Não bastasse isso, havia um argumento religioso para justificar a autoridade do czar, e o poder deste era considerado sagrado. Como não existia separação entre Igreja e Estado, os sacerdotes da Igreja Ortodoxa (a religião oficial) eram pagos com o dinheiro dos impostos. Ou seja, dinheiro que em grande parte vinha do trabalho dos camponeses e operários.
     
Como se vê, o czar tinha mais em comum com os antigos reis absolutistas (como Luís XIV) do que com os soberanos das monarquias parlamentares (como a que existe hoje na Inglaterra). Apesar disso, ele era muito popular. O povo, mesmo quando se rebelava, punha a culpa dos problemas do país nos nobres, nos ministros, nos funcionários públicos, nos latifundiários ou (com muita freqüência, sendo nisso apoiados pela propaganda oficial) até nos judeus. A figura do czar era sempre poupada, pois se achava que ele era bondoso e que seus assessores não o deixavam saber da verdadeira situação."
     
(Tulio Vilela; em "Domingo sangrento, bolcheviques e mencheviques")



No começo do século XX, a Rússia era um país atrasado, onde o povo vivia na extrema pobreza e sem participação alguma nas decisões políticas. O czar ou imperador era o senhor absoluto do poder, e a economia baseada na agrícultura fazia o país viver em uma realidade semi-feudal. Em janeiro de 1905, uma manifestação pacífica de trabalhadores, que exigiam melhores salários e redução da jornada de trabalho, foi reprimida com extrema violência pela guarda czarista, no que ficou conhecido como "Domingo Sangrento".

E foi apenas após a revolução popular, também ocorrida em 1905, que foi permitido ao povo russo eleger representantes para a Duma(parlamento), mas assim mesmo o poder continuou nas mãos do czar, que podia dissolver a Duma quando bem entendesse.

A Primeira Guerra Mundial acabou complicando ainda mais a situação, com o atrasado Exército Imperial Russo sofrendo inúmeras derrotas para os alemães e seus aliados austro-húngaros. Então em fevereiro de 1917(segundo o calendário juliano, pois segundo o calendário gregoriano foi em março), uma revolta popular eclodiu em Petrogrado, que era a capital do país, recebendo a adesão dos soldados e cabos do exército, que junto com os trabalhadores formaram o Soviet de Soldados e Trabalhadores de Petrogrado, assumindo o controle da cidade, o que acabou obrigando o Czar Nicolau II a abdicar o trono. Outros sovietes foram formados nas cidades russas, e a Duma(parlamento) formou um governo provisório, que garantiu a conquista da democracia, libertando os presos políticos e permitindo o retorno dos exilados, ao mesmo tempo que não promoveu nenhuma política social que combatesse a miséria da maior parte da população. E manteve a Rússia na guerra.

Então em 25 de outubro de 1917(segundo o calendário juliano, pois segundo o calendário gregoriano foi em 7 de novembro), ocorreu na Rússia, a primeira revolução socialista da história. Após retornar do exílio, o revolucionário marxista Vladimir Lênin ordenou a seus camaradas do Partido Bolchevique, que fizessem oposição ao governo provisório e preparassem a revolução, com a palavra de ordem "TODO PODER AOS SOVIETES". Após uma tentativa fracassada de golpe por parte de setores de extrema-direita do exército, os bolcheviques assumiram a hegemonia nos sovietes(conselhos de soldados e operários), e organizaram a revolução socialista. Em 25 de outubro de 1917, os revolucionários bolcheviques assumiram o controle da capital, Petrogrado, e enfrentando uma fraca resistência, ocuparam o Palácio de Inverno, que era a sede do governo provisório. Os revolucionários bolcheviques derrubaram o governo provisório, que havia sido estabelecido oito meses antes, e proclamaram a primeira república socialista da história.

O parlamento burguês(Duma) foi dissolvido, e o poder passou para as mãos dos sovietes(conselhos operários), que eram controlados pelos bolcheviques. Foi então formado o Conselho de Comissários do Povo, presidido por Vladimir Lênin, que assumiu o governo do país e promoveu a transformação radical da sociedade russa, desapropriando a burguesia. O governo bolchevique estatizou as fábricas e bancos, promoveu uma reforma agrária radical e tirou a Rússia da Primeira Guerra Mundial.

Entre 1918 e 1921, ocorreu uma sangrenta guerra civil entre as forças revolucionárias(Exército Vermelho), leais ao governo bolchevique, e as forças contra-revolucionárias que pretendiam restabelecer a monarquia czarista(Exército Branco), e que tinham o apoio das grandes potências capitalistas. O Exército Vermelho venceu a guerra e os bolcheviques construiram em dezembro de 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas(URSS).

A desigualdade social chegou ao fim, inclusive homens e mulheres passaram a ter os mesmos direitos e deveres, acabando com a discriminação sexual. A URSS passou a apoiar o movimento revolucionário na China, que unia comunistas e nacionalistas do Kuomitang, na luta contra os chamados "senhores da guerra", que mantinham a nação chinesa no mais absoluto atraso e entregue ao banditismo.

Entretanto o socialismo soviético acabou sofrendo uma grave degeneração, após Josef Stalin assumir o poder absoluto no final dos anos 20, estabelecendo uma ditadura totalitaria responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Esse regime arbitrário e burocrático, longe de acabar com a exploração do homem pelo homem, resultou no surgimento de uma casta privilegiada de burocratas que agia como uma nova classe dominante, oprimindo o proletariado e o campesinato. Isso acabou resultando no colapso do regime socialista no final dos anos 80.

"Um olhar retrospectivo sobre o século passado não pode se omitir sobre o trágico legado do stalinismo. A esquerda em especial não tem o direito de ignorá-lo. Tal herança pesa como um fardo sobre ela, mesmo já havendo uma alentada produção teórica de condenação dos anos em que Stalin esteve à frente da URSS, principalmente após o final dos anos 20 e até sua morte, em 1953. (...) 
  
Para a esquerda, é necessário resistir à tentação de refugiar-se num tempo de ouro, na nostalgia de um tempo feliz, que não existiu, ao contrário. O stalinismo foi um tempo de terror, de esmagamento dos adversários pela violência, marcado pela ausência da política, ao menos se esta for entendida como o reino da liberdade, e não da força bruta. 
     
O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática."  
     
(Emiliano José; O stalinismo e sua trágica herança)


O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, transformando a União Soviética ou URSS, em uma ditadura totalitaria e burocratica responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Também foi responsável pela morte de milhares de pessoas, nos países do Leste Europeu onde o Exército Vermelho estabeleceu regimes socialistas após a Segunda Guerra Mundial. A filosofia marxista em momento algum defende regimes totalitarios, ditadura de partido único e muito menos culto a personalidade do lider, que eram caracteristicas do regime stalinista.

Josef Stalin era um revolucionário bolchevique e tornou-se secretário-geral do Partido Comunista da Rússia em 3 de fevereiro de 1922. Quando o lider do partido e do Estado soviético, o revolucionário Vladimir Lenin, sofreu o terceiro enfarte que o deixou inconsciente, em março de 1923, foi formado um triunvirato composto por Stalin, Grigory Zinoviev, e Lev Kamenev, que assumiu a direção do governo soviético. Após a morte de Lenin, ocorrida em 21 de janeiro de 1924, começou uma batalha feroz na burocracia do partido para ver quem iria sucede-lo. Stalin saiu na frente por comandar a burocracia partidária, e após derrotar Trotsky e afastar outros adversários dos principais postos de direção, assumiu o poder absoluto em 1928.

Leon Trotsky foi o revolucionário bolchevique que organizou o Exército Vermelho, e era considerado o principal adversário de Stalin na sucessão da liderança do Estado soviético. Opositor do stalinismo, Trotsky acabou sendo expulso da URSS, em 1929, e no exílio organizou um movimento comunista dissidente, a IV Internacional. Acabou sendo assassinado por um agente stalinista em 1940, no México, onde estava exilado.

O stalinismo tornou-se uma antítese do marxismo, pois ao invés de acabar com a exploração do homem pelo homem, originou uma casta privilegiada de burocratas que agia como uma nova classe dominante, além de estabelecer um regime ditadorial responsável por alguns dos piores crimes contra a humanidade no século XX. Isso acabou resultando no fracasso dessa primeira experiência socialista.
 
Mas apesar de fracassada, a experiência socialista na URSS e no Leste Europeu teve a importância histórica de representar uma alternativa de sociedade pós-capitalista, onde ocorreu a desapropriação da burguesia, buscando acabar com a exploração do homem pelo homem. Mesmo com todos os crimes promovidos pelo stalinismo, essa primeira experiência socialista conseguiu transformar a Rússia semi-feudal dos czares em uma superpotência nuclear, que ameaçou a hegemonia mundial dos EUA, inclusive dando inicio ao programa espacial da humanidade, lançando o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, e colocando o primeiro homem no espaço, o major Yuri Gagarin, em abril de 1961.  

“A Revolução Russa foi a primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro, uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de atitudes.

Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo. (…)

Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir uma sociedade igualitária.”

(Marly A. G. Vianna, professora de História da Universidade Federal de São Carlos; em “90 Anos da Revolução Russa”)


A esquerda socialista precisa ser anti-stalinista, precisa deixar claro que ditaduras totalitarias de partido único, culto a personalidade e outras barbaridades que caracterizaram o socialismo oriundo da tradição stalinista, não tem nenhuma relação com o marxismo autêntico. Aquele socialismo que existia na antiga URSS, não é em hipótese alguma o socialismo que os marxistas autênticos querem construir. Inclusive em dezembro de 1922, ou seja, três meses antes de sofrer o terceiro derrame que o deixou inconsciente até sua morte, ocorrida em janeiro de 1924, o revolucionário Vladimir Lenin escreveu uma carta onde criticava Stalin, solicitando a sua demissão do cargo de secretário geral do Partido Comunista da Rússia(bolchevique), recomendando alguém que fosse mais leal e tolerante para o cargo. Lênin pretendia apresentar essa carta no congresso do partido, mas não pode faze-lo por causa do derrame.  

"Me refiro à estabilidade como garantia contra a ruptura em um futuro próximo, e tenho a proposta de colocar aqui várias considerações de índole puramente pessoal. Creio que o fundamental no problema da estabilidade, desde este ponto de vista, são tais membros do CC como Stálin e Trotsky. As relações entre eles, a meu modo de ver, encerram mais da metade do perigo desta divisão que se poderia evitar, e a cujo objetivo deveria servir entre outras coisas, segundo meu critério, a ampliação do CC a 50 ou até 100 membros.
  
O camarada Stálin, tendo chegado ao Secretariado Geral, tem concentrado em suas mãos um poder enorme, e não estou seguro que sempre irá utilizá-lo com suficiente prudência. Por outro lado, o camarada Trotsky, segundo demonstra sua luta contra o CC em razão do problema do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, não se distingue apenas por sua grande capacidade. Pessoalmente, embora seja o homem mais capaz do atual CC, está demasiado ensoberbecido e atraído pelo aspecto puramente administrativo dos assuntos(1). Estas características de dois destacados dirigentes do atual CC podem levar sem querer-lo à ruptura, e se nosso Partido não toma medidas para impedir-lo, a divisão pode vir sem que se espere.
  
Não seguirei caracterizando aos demais membros do CC por suas características pessoais. Recordarei apenas que o episódio de Zinoviev e Kamenev em Outubro(2) não é, naturalmente, uma casualidade, e que se disto não se pode culpar pessoalmente, tão pouco a Trotsky pelo seu não bolchevismo.(3)(...)
  
Stálin é brusco demais, e este defeito, plenamente tolerável em nosso meio e entre nós, os comunistas, se coloca intolerável no cargo de Secretário Geral. Por isso proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Stálin a outro posto e nomear a este cargo outro homem que se diferencie do camarada Stálin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas, menos caprichoso, etc. Esta circunstância pode parecer fútil tolice. Porém eu creio que, desde o ponto de vista de prevenir a divisão e desde o ponto de vista do que escrevi anteriormente sobre as relações entre Stálin e Trotsky, não é uma tolice, ou se trata de uma tolice que pode adquirir importância decisiva."    
  
(Trecho da Carta de Lênin ao XIII Congresso do Partido Comunista da Rússia(bolchevique))
 
  
(1) Lenin, no seu Testamento Político, fala de Trotsky como "o homem mais capaz do presente Comitê Central", mas deplora suas tendências autoritárias (nas palavras de Lenin, "sua tendência a abordar as questões apenas pelo lado administrativo").
  
(2) Zinoviev e Kamenev colocaram-se contra a tentativa de insurreição que resultaria na Revolução de Outubro de 1917 nas instâncias do Partido Bolchevique.
  
(3) Até 1917 Trotsky não ingressara nas fileiras do Partido Bolchevique, e conservava profundas divergências com os mesmos.

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

MARXISMO

"A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes".
(Karl Marx e Friedrich Engels; Manifesto do Partido Comunista)


Segundo a filosofia marxista, a luta de classes é o motor que move a história. Essa luta é travada pelas classes dominadas contra as classes dominantes e resulta em uma revolução social, promovendo a mudança dos meios de produção e assim gerando uma nova sociedade. Por exemplo: no passado havia o feudalismo, onde a produção se apoiava na exploração do trabalho produtivo dos servos da gleba. A luta de classes entre o povo(servos, artesãos, burgueses) e as classes dominantes(nobreza e clero) resultou nas revoluções liberais dos séculos XVII e XVIII: Revolução Gloriosa[1688], na Inglaterra; Revolução Americana[1776]; e Revolução Francesa[1789]. Essas revoluções originaram o capitalismo, onde a produção é orientada para o máximo lucro através da exploração da mais-valia do trabalho proletário. 

A luta de classes entre o proletariado(operários e demais trabalhadores urbanos) e seus aliados(camponeses, intelectuais assalariados, desempregados, etc) contra a burguesia(empresários, banqueiros, latifundiários), resultará em uma revolução socialista que levará o proletariado ao poder, substituindo o modo de produção capitalista pelo socialista, onde o proletariado se torna a classe dominante e a propriedade dos meios de produção e troca é socializada. Será preciso, então, sufocar a reação dos expropriados, motivo pelo qual o proletariado deve estabelecer a sua "ditadura" sobre a burguesia.

Segundo o pensamento marxista, o Estado nem sempre existiu. Teve sua origem quando as sociedades humanas se dividiram em classes sociais antagônicas, com o objetivo de suavizar a luta entre as classes, mas sempre tomando partido em favor das classes dominantes. Na atual sociedade capitalista, onde a burguesia é a classe dominante, o papel do Estado é proteger a propriedade privada dos meios de produção, distribuição e troca. Com a revolução socialista, o proletariado toma o poder e estabelece sua "ditadura" sobre a burguesia, promovendo a socialização de toda a propriedade dos meios de produção, distribuição e troca. Mas esse seria um regime transitório, pois eliminada a propriedade privada dos meios de produção e a divisão do trabalho, acabaria por se extinguir as classes sociais, ocasionando o surgimento da sociedade comunista, onde todos seriam iguais economicamente e o Estado se tornaria desnecessário, deixando de existir. 

Em 25 de outubro de 1917(ou 7 de novembro, segundo o calendário gregoriano), ocorreu na Rússia a primeira revolução socialista da história. O revolucionário marxista Vladimir Lênin havia defendido a possibilidade de revoluções socialistas ocorrerem em países capitalistas atrasados, como era o caso da Rússia semi-feudal dos czares, e desenvolveu o conceito do partido revolucionário como vanguarda do proletariado, fundando o bolchevismo. Então em 25 de outubro de 1917, os revolucionários bolcheviques derrubaram o governo provisório(que havia sido estabelecido oito meses antes, quando o Czar Nicolau II abdicou o trono devido a uma revolta popular). O parlamento burguês foi dissolvido, e o poder passou para as mãos dos sovietes(conselhos operários), que eram controlados pelos bolcheviques. Foi então formado o Conselho de Comissários do Povo, presidido por Lênin, que assumiu o governo do país e promoveu a transformação radical da sociedade russa, desapropriando a burguesia, promovendo uma reforma agrária radical e instaurando o governo soviético.
  
O socialismo soviético acabou sofrendo uma grave degeneração, após Josef Stalin assumir o poder absoluto no final dos anos 20, estabelecendo uma ditadura totalitaria responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Esse regime arbitrário e burocrático, longe de acabar com a exploração do homem pelo homem, resultou no surgimento de uma casta privilegiada que agia como uma nova classe dominante, oprimindo o proletariado e o campesinato. Isso acabou resultando no colapso do regime socialista no final dos anos 80.
 
Mas apesar de fracassada, a experiência socialista na URSS teve a importância histórica de representar uma alternativa de sociedade pós-capitalista, onde ocorreu a desapropriação da burguesia, buscando acabar com a exploração do homem pelo homem. Mesmo com todos os crimes promovidos pelo stalinismo, essa primeira experiência socialista conseguiu transformar a Rússia semi-feudal dos czares em uma superpotência nuclear, que ameaçou a hegemonia mundial dos EUA, inclusive dando inicio ao programa espacial da humanidade, lançando o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, e colocando o primeiro homem no espaço, o major Yuri Gagarin, em abril de 1961.  


“A Revolução Russa foi a primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro, uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de atitudes.
 
Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo. (…)
 
Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir uma sociedade igualitária.”
 
(Marly A. G. Vianna, professora de História da Universidade Federal de São Carlos; em “90 Anos da Revolução Russa”)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

DIALÉTICA

Em suas origens, dialética era a arte do diálogo, da contraposição de idéias que leva a outras idéias. É a partir de Heráclito, que viveu por volta de 500 a.C., que a dialética se transforma no estudo do devir – o vir a ser, as mutações.

Segundo Heráclito, o fluxo permanente define a harmonia universal. Tudo se move, nada se fixa na imutabilidade. Ele costumava repetir uma frase que se tornou célebre – ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários. Deste conflito entre os opostos é que nasce a concórdia, a harmonia. Isto permite que o Ser seja uno ao mesmo tempo em que se encontra mergulhado nas constantes mutações do contexto que o envolve. Ele ainda afirma que os contrários ocupam perfeitamente o mesmo espaço, simultaneamente, como o início e o final de uma esfera. 


Na modernidade

No início do século XIX Georg Wilhelm Hegel (1770-1831), desejando solucionar o problema das transformações às quais a realidade está submetida, apresenta a dialética como um movimento racional que permite transpor uma contradição. Uma tese inicial contradiz-se e é ultrapassada por sua antítese. Essa antítese, que conserva elementos da tese, é superada pela síntese, que combina elementos das duas primeiras, num progressivo enriquecimento. A dialética hegeliana não é um método, mas um movimento conjunto do pensamento e da realidade.

Segundo Hegel, a história da humanidade cumpre uma trajetória dialética marcada por três momentos: tese, antítese e síntese. O primeiro vai das civilizações orientais antigas até o surgimento da filosofia na Grécia. Hegel o classifica como objetivo, porque considera que o espírito está imerso na natureza. O segundo é influenciado pelos gregos, mas começa efetivamente com o cristianismo e termina com Descartes. É um momento subjetivo, no qual o espírito toma consciência de sua existência e surge o desejo de liberdade. O terceiro, ou a síntese absoluta, acontece a partir da Revolução Francesa, quando o espírito consciente controla a natureza e o desejo de liberdade concretiza-se na concepção do Estado moderno.

Karl Marx e Friedrich Engels (1820-1895) reformam o conceito hegeliano de dialética: utilizam a mesma forma, mas introduzem um novo conteúdo. Chamam essa nova dialética de materialista, porque o movimento histórico, para eles, é derivado das condições materiais da vida.

A dialética materialista analisa a história do ponto de vista dos processos econômicos e sociais e a divide em quatro momentos: Antiguidade, feudalismo, capitalismo e socialismo. Cada um dos três primeiros é superado por uma contradição interna, chamada "germe da destruição". A contradição da Antiguidade é a escravidão; do feudalismo, os servos; e do capitalismo, o proletariado. O socialismo iria originar a síntese final, em que a história cumpre seu desenvolvimento dialético: A sociedade comunista.

MATÉRIA DA SEGUNDA SÉRIE

Epistemologia

A epistemologia, também chamada teoria do conhecimento, é o ramo da filosofia interessado na investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões principais que ela tenta responder estão as seguintes. O que é o conhecimento? Como nós o alcançamos?

Um passo óbvio na direção de responder a primeira questão é tentar uma definição. A definição padrão, preliminarmente, é a de que o conhecimento é crença verdadeira justificada. Esta definição parece plausível porque, ao menos, ele dá a impressão de que para conhecer algo alguém deve acreditar nele, que a crença deve ser verdadeira, e que a razão de alguém para acreditar deve ser satisfatória à luz de algum critério - pois alguém não poderia dizer conhecer algo se sua razão para acreditar fosse arbitrária ou aleatória. Assim, cada uma das três partes da definição parece expressar uma condição necessária para o conhecimento, e a reivindicação é a de que, tomadas em conjunto, elas são suficientes.
 
Definição de Conhecimento
 
Há diferentes modos pelos quais alguém poderia ser indicado como tendo conhecimento. Alguém pode conhecer pessoas ou lugares, no sentido de estar familiarizado com eles. Isso é o que se quer dizer quando alguém fala "Meu pai conhecia Lloyd George". Aguém pode conhecer como fazer algo, no sentido de possuir uma habilidade ou destreza. Isso é o que se quer dizer quando alguém fala "Eu sei jogar xadrez". E alguém pode saber que é algo é o caso quando alguém fala "Eu sei que o Everest é montanha mais alta". Este último modo é às vezes chamado de "conhecimento proposicional", e é a espécie que os epistemólogos mais desejam entender.
 
A definição de conhecimento já mencionada - conhecimento é crença verdadeira justificada - é entendida como uma análise do conhecimento no sentido proposicional. A definição é obtida perguntando que condições tem de ser satisfeitas quando queremos descrever alguém como conhecendo algo. Ao dar a definição enunciamos o que esperamos que sejam as condições necessárias e suficientes para a verdade da afirmação "S sabe que p", onde "S" é o sujeito epistêmico - o suposto conhecedor - e "p" a proposição.
 
A definição sustenta um ar de plausibilidade, ao menos quanto aplicada ao conhecimento empírico, porque parece encontrar o mínimo que pode ser esperado como necessário a partir de um conceito conseqüente. Parece correto esperar que se S sabe que p, então p deve, ao menos, ser verdadeira. Parece certo esperar que S deve não meramente supor ou esperar que p é o caso, mas que deve ter um atitude epistêmica positiva em relação a p: S deve acreditar que ela é verdadeira. E se S acredita em alguma proposição verdadeira enquanto ela não tem nenhum fundamento, ou fundamentos incorretos, ou meramente fundamentos arbitrários ou imaginários, não diríamos que S conhece p; querendo dizer que S deve ter bases para acreditar que p em algum sentido propriamente justificado de assim proceder.

Fonte: A Epistemologia; de A. C. Grayling