“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.” (Marilena Chaui)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Matéria da segunda série

CETICISMO

Descartes procurava verdades que nenhum cético pudesse desafiar. Para descobri-las, começou por adotar um método de dúvida cética, rejeitando todas as crenças que poderiam, sob qualquer condição imaginável, ser falsas ou duvidosas. Rejeitou prontamente as crenças baseadas nos sentidos porque estes às vezes nos enganam. Rejeitou as crenças sobre a realidade física porque o que consideramos ser tal realidade pode fazer apenas parte de um sonho. Rejeitou as crenças baseadas no raciocínio porque podemos ser sistematicamente enganados por uma força demoníaca.

Mas Descartes passou a perguntar se podemos duvidar ou rejeitar a crença na nossa própria existência. Aqui descobrimos que toda tentativa de o fazer é imediatamente anulada pela nossa consciência de que, nós mesmos, estamos duvidando. Assim, a primeira verdade que Descartes alegou que não poderia ser colocada em dúvida foi “penso, logo existo” (o cogito). A partir desta verdade alguém poderia extrair o critério de que tudo o que concebemos clara e distintamente é verdadeiro. Usando este critério, estabelecemos que Deus existe, que é todo-poderoso, o criador de tudo o que existe, e que, porque é perfeito, não nos pode enganar. Portanto, tudo o que Deus nos faz acreditar clara e distintamente tem de ser verdadeiro.

O sistema de Descartes foi criticado por Gassendi, Hobbes e Mersenne por se basear em dogmas injustificados e injustificáveis. Por que não poderia um Deus todo-poderoso enganar-nos? Como sabemos que não existe uma verdade para Deus ou para os anjos que é diferente da que somos forçados a aceitar como verdadeira? Por que tem de ser verdadeiro na realidade, e não apenas nas nossas mentes, o que concebemos clara e distintamente? Como sabemos que toda a nossa imagem subjetiva do mundo, por mais certeza que tenhamos, não é apenas uma ilusão nossa? Descartes respondeu que levar estas perguntas a sério era fechar a porta à razão. Mas este argumento da catástrofe não respondia realmente aos desafios céticos.

Hume desenvolveu um ceticismo mais abrangente. Nada podemos conhecer além das impressões e idéias. O nosso conhecimento causal, tudo o que nos leva para lá da nossa experiência imediata, não se baseia em qualquer princípio racional ou justificável, mas apenas numa tendência psicológica natural e inalterável para ter a expectativa de que as experiências futuras se assemelhem às que tivemos no passado. Qualquer tentativa para defender as nossas crenças inevitáveis em causas, no mundo exterior, ou num eu real constitutivo em nós, conduz ao absurdo e à contradição. Assim, somos conduzidos por qualquer investigação das nossas crenças a um ceticismo total, mas a natureza não nos deixa aí; não podemos deixar de acreditar. Assim, conclui Hume, é devido a uma fé animal que nos mantemos vivos e é ela que acalma as nossas irresistíveis dúvidas céticas.

Kant afirmou que Hume o despertou de seu sono dogmático e o fez ver quão incertas são as nossas alegações de conhecimento. Mas insistiu que Hume tinha feito a pergunta errada. Temos conhecimento inquestionável que nos diz algo sobre toda a experiência possível, como, por exemplo, que toda a experiência será temporal e espacial. Como é tal conhecimento possível, se não podemos ir além do nosso mundo da experiência? Kant insistiu que a experiência é a combinação do modo como a projetamos e do seu conteúdo. Há formas de todas as percepções possíveis, e estas são categorias por meio das quais fazemos juízos sobre todas as experiências possíveis. Se estas correspondem a um mundo além da experiência, não podemos saber, mas podemos analisar o que podemos estar seguros quanto à experiência possível. Portanto, podemos ter algum tipo de conhecimento, mas nenhum conhecimento das coisas-em-si.

Kant propôs a sua filosofia crítica como uma maneira de resolver os problemas céticos internos à filosofia moderna.

Fonte: Retirado de Jonathan Dancy e Ernest Sosa (org.) A Companion to Epistemology (Oxford: Blackwell, 1997, pp. 719-721).

terça-feira, 3 de maio de 2011

Matéria da terceira série

O fracasso do socialismo soviético deveu-se a dois fatores: o primeiro foi a ausência de democracia, e o segundo foi a completa estatização da economia, pois ao invés de socializar a propriedade dos meios de produção, os bolcheviques na verdade a estatizaram, o que contribuiu decididamente para a burocratização do Estado socialista.

Durante a Guerra Civil Russa(1918-1921), os bolcheviques buscaram construir o socialismo por decreto, estabelecendo a completa estatização da economia e o sistema de requisições forçadas de todo excedente agricola. Era o chamado "Comunismo de Guerra", que acabou promovendo a ruptura da aliança operário-camponesa. Os camponeses estavam dispostos a pagar um tributo à revolução (em percentagem da colheita), porque não queriam perder suas terras, permitindo uma restauração czarista, mas não queriam entregar todo o excedente agrícola, arbitrado segundo critérios extorsivos pelos agentes do poder soviético vindos da cidade.

O resultado foi a eclosão de várias revoltas no campo, sufocadas brutalmente pelo Exército Vermelho, e a fome que tomou conta do país, pois o campesinato deixou de produzir.

A NOVA POLÍTICA ECONOMICA

"O socialismo não pode ser imposto por decreto: é um processo em desenvolvimento". (Salvador Allende)

Felizmente os bolcheviques corrigiram esse erro ao estabelecer a Nova Política Economica, cuja sigla em inglês era NEP. Uma economia mista, onde o mercado e a planificação economia coexistem, com a propriedade social e estatal sendo implementada nos setores estratégicos, enquanto a pequena e média propriedade privada continuavam funcionando em outros setores, especialmente na agricultura, sobre a regulação do Estado proletário.

Mas infelizmente a burocracia já existente e a própria cultura do bolchevismo não permitiram que essa política fosse consolidada. Então em 1928, Stalin promoveu uma 'guinada esquerdista', adotando a coletivização forçada no campo e a completa estatização da economia, restabelecendo dessa forma a política equivocada de construção do socialismo por decreto. Com isso foi promovido um verdadeiro massacre no campo, onde morreram mais de 10 milhões de camponeses, seja em virtude da repressão ou pela fome. O campesinato acabou regredindo a condição de servidão, o que acabou promovendo a ruptura definitiva da aliança operário-camponesa, levando o partido comunista a se afastar das massas e a burocracia se consolidar no poder absoluto.

Esses dois fatores, ausência de democracia política e completa estatização da economia, constituem a base da burocratização do Estado soviético, e consequentemente dos demais Estados que seguiram esse modelo, o que levou a derrota da primeira experiência de construção do socialismo.

O socialismo não pode ser construido por decreto, precisa ser construido processualmente, como a própria história comprova ao observarmos o sucesso da Nova Política Economica, adotada entre 1921 e 1928. Uma economia mista, onde o mercado e a planificação democrática da economia coexistem, com a propriedade social e não estatal sendo implementada nos setores estratégicos, enquanto a pequena e média propriedade privada continuam funcionando em outros setores, sobre a regulação do Estado proletário.

A esquerda precisa romper com a herança stalinista, abandonando o fetiche pelo estatismo. O mercado e a propriedade privada devem coexistir com a planificação e com a propriedade coletiva na futura sociedade socialista, principalmente na sua fase inicial.


"O socialismo não pode, nem deve eliminar o mercado de imediato. Precisará conviver com o mercado e tirar proveito dele durante um tempo certamente longo. Só que, para ser compatível com o socialismo, precisará ser um mercado regulado, direcionado pelo planejamento do Estado e refreado no que se refere aos aspectos socialmente negativos." (Jacob Gorender; em Teoria e Debate nº 16)

SOCIALISMO RENOVADO

A alternativa para a construção do socialismo renovado, sem os vicios do stalinismo, eu acredito existir na obra de Antonio Gramsci, que não se deixou contaminar pelo esquerdismo(a doença infantil do comunismo), e muito menos pelo dogmatismo.

Gramsci desenvolveu a teoria marxista-leninista para a realidade das sociedades capitalistas desenvolvidas, chamadas por ele de sociedades do tipo "ocidental", onde a disputa da hegemonia na sociedade é fundamental. Isso porque nessas sociedades, ocorreu a chamada "socialização da política", o que ampliou o poder político(que antes era limitado aos palácios) para a chamada "sociedade civil". Portanto não basta palavras de ordem "radicais" contra o capitalismo, muito menos a convocação de greves e manifestações para se desencadear um processo revolucionário. Precisa-se antes disputar a hegemonia na sociedade, conquistando o coração e mente das massas proletárias.

A partir das reflexões de Gramsci é possível desenvolver um conceito democrático de socialismo, fundado no consenso e não somente na coerção, promovendo assim a verdadeira superação do stalinismo, refundando o marxismo segundo a realidade da luta de classes no século XXI.

"Distinguindo-se dos social-democratas que se opuseram à revolução bolchevique e à União Soviética (Kautsky, Bernstein e tantos outros), Gramsci - tal como Rosa Luxemburg -- defende a necessidade da revolução e se solidariza, ainda que criticamente, com seus primeiros passos. Mas, ao mesmo tempo, dissocia-se claramente dos rumos que a União Soviética começou a tomar a partir dos anos 30, quando a estatolatria se tornou "fanatismo teórico" e converteu-se em algo "perpétuo", consolidando assim um "governo dos funcionários" que, ao reprimir a sociedade civil e as possibilidades do autogoverno democrático dos cidadãos, gerou um despotismo burocrático que nada tinha a ver com os ideais emancipadores e libertários do socialismo marxista. (...)

...Gramsci nos propõe um outro modelo de socialismo, um modelo no qual o centro da nova ordem deve residir não no fortalecimento do Estado, mas sim na ampliação da "sociedade civil", de um espaço público não estatal. Na "sociedade regulada" - o belo pseudônimo que encontrou para designar o comunismo --, Gramsci supõe (e volto a citá-lo) que "o elemento Estado-coerção pode ser imaginado como capaz de se ir exaurindo à medida que se afirmam elementos cada vez mais numerosos de sociedade regulada (ou Estado-ético, ou sociedade civil)". Ora, como se sabe, as instituições próprias da sociedade civil são o que Gramsci chama de "aparelhos ''privados'' de hegemonia", aos quais se adere consensualmente; e é precisamente essa adesão consensual o que os distingue dos aparelhos estatais, do "governo dos funcionários", que impõem suas decisões coercitivamente, de cima para baixo. Portanto, afirmar "elementos cada vez mais numerosos" de sociedade civil significa ampliar progressivamente o âmbito de atuação do consenso, ou seja, de uma esfera pública intersubjetivamente construída, fazendo assim com que as interações sociais percam cada vez mais seu caráter coercitivo." (Carlos Nelson Coutinho; em "Atualidade de Gramsci")


O revolucionário marxista italiano Antonio Gramsci era defensor da Nova Política Economica(NEP, na sigla em inglês), se posicionando contra as posições esquerdistas de Trotsky, mas sem aderir ao stalinismo. Assim como o revolucionário bolchevique Nikolai Bukharin, Gramsci via na NEP, o caminho para a construção do socialismo.

Matéria da terceira série

STALINISMO E TROTSKISMO

"Um olhar retrospectivo sobre o século passado não pode se omitir sobre o trágico legado do stalinismo. A esquerda em especial não tem o direito de ignorá-lo. Tal herança pesa como um fardo sobre ela, mesmo já havendo uma alentada produção teórica de condenação dos anos em que Stalin esteve à frente da URSS, principalmente após o final dos anos 20 e até sua morte, em 1953. (...)

Para a esquerda, é necessário resistir à tentação de refugiar-se num tempo de ouro, na nostalgia de um tempo feliz, que não existiu, ao contrário. O stalinismo foi um tempo de terror, de esmagamento dos adversários pela violência, marcado pela ausência da política, ao menos se esta for entendida como o reino da liberdade, e não da força bruta.

O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática."

(Emiliano José; em "O stalinismo e sua trágica herança")

O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, transformando a União Soviética(URSS) em uma ditadura totalitaria e burocratica, responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Também foi responsável pela morte de milhares de pessoas, nos países do Leste Europeu onde o Exército Vermelho estabeleceu regimes socialistas após a Segunda Guerra Mundial.

O revolucionário bolchevique Leon Trotsky era opositor do stalinismo, motivo pelo qual foi expulso da URSS, em 1929. No exílio, organizou um movimento comunista dissidente, a IV Internacional. Acabou sendo assassinado por um agente stalinista em 1940, no México, onde estava exilado. Mas apesar disso, Trotsky defendia as mesmas políticas totalitarias que Stalin imprementou depois que assumiu o poder absoluto em 1929. A diferença entre trotskismo e stalinismo residia no fato de Stalin defender a política do socialismo em um só país, ou seja, os revolucionários bolcheviques deveriam construir o socialismo apenas na URSS, e aguardar que outras revoluções ocorressem. Já Trotsky defendia que a revolução fosse exportada para a Europa Ocidental, e somente a partir disso que o socialismo poderia ser construido. A tese de Trotsky era inconsequente, pois a Rússia estava arrasada devido a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil, e o fracasso da política do "comunismo de guerra". Não havia a menor condição dos soviéticos exportarem a revolução, até porque a revolução havia sido derrotada na Alemanha e na Hungria. E na Itália, a ascenção do fascismo promoveu a derrota do movimento operário revolucionário.

O autoritarismo de Trotsky

Em 1920-21, Leon Trotsky defendeu a militarização do trabalho e a estatização dos sindicatos, assim como uma política de industrialização acelerada baseada na expropriação do campesinato. Foi sempre um opositor da Nova Política Economica(ou NEP, na sigla em inglês), defendendo a construção do socialismo "por decreto", como Stalin acabou realizando.

"A discussão em torno do papel do Estado, sua relação com os sindicatos, a autonomia da classe operária, nada disso fora palavrório oco. Lênin, com a NEP, propunha agora um outro caminho, com maior liberdade para a cidade e o campo, recuperando o papel do mercado, compreendendo que o capitalismo ainda tinha fôlego para se desenvolver numa sociedade que ele acreditava estar caminhando para o socialismo. Trotsky tinha outra visão, que mais tarde, ironicamente, será integralmente adotada por seu mais visceral inimigo, Stalin. Está certo Deutscher quando afirma não haver praticamente nenhum aspecto do programa sugerido por Trotsky em 1920-21 que Stalin não tenha usado durante a industrialização acelerada da década de 1930. Adotou o recrutamento forçado, subordinou os sindicatos, estimulou a disputa de produção entre os trabalhadores, na linha do taylorismo soviético defendido por Trotsky."

(Emiliano José; em "Trotsky: do pomar para a Revolução")


A política autoritária defendida por Trotsky, foi derrotada por Lenin, que defendeu a aprovação da Nova Política Economica(ou NEP, na sigla em inglês). Mas infelizmente Stalin acabou ressuscitando essa política autoritária em 1929, após derrotar Trotsky e demais adversários. Portanto a verdade que muitos comunistas insistem em não enxergar, é o fato de Trotsky ter sido um dos primeiros a defender políticas extremamente autoritárias entre os bolcheviques(como por exemplo, a estatização dos sindicatos e a militarização do trabalho), motivo pelo qual foi criticado pelo revolucionário Vladimir Lenin.

"Trotsky foi o principal defensor da fusão dos sindicatos ao Estado e, inclusive, a sua militarização. Ele aplicou seus métodos "revolucionários" quando foi responsabilizado pela reorganização dos serviços de transporte. Assumindo o controle absoluto do Comitê Central de Transporte, decretou imediatamente "estado de emergência" nas ferrovias, destituiu os dirigentes eleitos dos sindicatos e colocou todos os operários sob lei marcial.

Em 16 de dezembro de 1919, Trotsky apresentou no Comitê Central do Partido Bolchevique a sua tese "Sobre a transição entre a guerra e a paz", na qual reafirmou a necessidade de militarização dos sindicatos russos. Ele defendeu novamente as suas posições no IX congresso do PCRb. Na ocasião afirmou ele: "As massas trabalhadoras não podem vaguear através da Rússia. Devem ser enviadas para aqui e para ali, nomeadas, comandadas exatamente como soldados (...) O trabalho obrigatório deve atingir a sua maior intensidade durante a transição do capitalismo para o socialismo (...) É preciso formar patrulhas punitivas e pôr em campos de concentração os que desertam do trabalho". E concluiu: "O Estado Operário possui normalmente o direito de forçar qualquer cidadão a fazer qualquer trabalho em qualquer local que o Estado escolha."

Contra as posições autoritárias de Trotsky, Lênin escreveu os artigos "Sobre os Sindicatos, o momento atual e os erros de Trotsky" e "Mais uma vez sobre os sindicatos, o momento atual e os erros dos camaradas Trotsky e Bukharin". Afirmou ele: "os sindicatos são uma organização da classe dirigente, dominante e governante. Mas não são uma organização estatal, não são uma organização coercitiva, são uma organização educadora, uma organização que atrai e instrui, são uma escola, escola de governo, escola de administração, escola de comunismo". Portanto, não poderiam ser transformados em quartel ou prisão.

Lênin negou a tese trotskista de que a defesa dos interesses materiais e espirituais da classe operária não deveria ser de incumbência dos sindicatos em um Estado operário. Para ele isto era um grave erro. Afirmou Lênin: "O camarada Trotsky fala de 'Estado operário'. Permitam-me dizer que isto é pura abstração (...) comete-se um erro evidente quando se diz: Para que e ante quem defender a classe operária, se não há burguesia e o Estado é operário? Não se trata de um Estado completamente operário, aí está o xis do problema (...) Em nosso país, o Estado não é, na realidade, operário, e sim operário e camponês (...) Porém há mais alguma coisa (...) nosso Estado é operário com uma deformação burocrática (...) Pois bem, será que diante desse tipo de Estado (...) nada têm os sindicatos a defender? Pode-se dispensá-lo na defesa dos interesses materiais e espirituais do proletariado organizado em sua totalidade? Essa seria uma opinião completamente errada do ponto de vista teórico (...) Nosso Estado de hoje é tal que o proletariado organizado em sua totalidade deve defender-se, e nós devemos utilizar estas organizações operárias para defender os operários em face de seu Estado e para que os operários defendam nosso Estado"".

(Augusto César Buonicore; em "Lenin, os sindicatos e o socialismo")

Por isso afirmo que o trotskismo não é alternativa para a construção de um socialismo sem os vicios do stalinismo, mas sim o outro lado da mesma moeda. Os marxistas que defendem a luta revolucionária do proletariado para derrubar o capitalismo e construir uma nova sociedade, onde não mais exista a exploração do homem pelo homem, devem romper com essas duas concepções e devem buscar resgatar o pensamento marxista, renovando-o segundo a realidade da luta de classes no século XXI.

Para começar, devem recordar do revolucionário marxista Victor Serge, opositor do stalinismo, que mesmo apoiando a Revolução Russa e o bolchevismo, reconheceu que erros foram cometidos e afirmou que "as novas lutas anticapitalistas deverão assumir novas formas no futuro". Os dogmaticos de plantão, que acreditam ainda estarem vivendo no começo do século XX, deveriam acordar para a realidade a partir dessa afirmação de Victor Serge.

Matéria da terceira série


O socialismo soviético


"O czar era considerado dono de toda a Rússia, e todos os seus súditos deviam servi-lo. Não bastasse isso, havia um argumento religioso para justificar a autoridade do czar, e o poder deste era considerado sagrado. Como não existia separação entre Igreja e Estado, os sacerdotes da Igreja Ortodoxa (a religião oficial) eram pagos com o dinheiro dos impostos. Ou seja, dinheiro que em grande parte vinha do trabalho dos camponeses e operários.
     
Como se vê, o czar tinha mais em comum com os antigos reis absolutistas (como Luís XIV) do que com os soberanos das monarquias parlamentares (como a que existe hoje na Inglaterra). Apesar disso, ele era muito popular. O povo, mesmo quando se rebelava, punha a culpa dos problemas do país nos nobres, nos ministros, nos funcionários públicos, nos latifundiários ou (com muita freqüência, sendo nisso apoiados pela propaganda oficial) até nos judeus. A figura do czar era sempre poupada, pois se achava que ele era bondoso e que seus assessores não o deixavam saber da verdadeira situação."
     
(Tulio Vilela; em "Domingo sangrento, bolcheviques e mencheviques") 

A Rússia do tempo dos czares era um país semi-feudal, onde 80% da população era constituida por camponeses, que viviam em estado de extrema pobreza, assim como os trabalhadores das cidades. Enquanto isso, a nobreza e a burguesia vivia na extrema riqueza, e os czares eram autocratas, governando como monarcas absolutistas. E isso em pleno século XX.

Se não bastasse isso, em 9 de janeiro de 1905, uma manifestação pacífica organizada por um padre ortodoxo, foi brutalmente reprimida pela Guarda Imperial. Os manifestantes carregavam imagens religiosas e cantavam "Deus salve o Czar", exigindo melhores salários e redução da jornada de trabalho. Foram massacrados pelos soldados czaristas, no que ficou conhecido como "Domingo Sangrento". E além disso, o exército e a marinha da Rússia estavam condenados ao atraso, motivo pelo qual os russos perderam a guerra para os japoneses(1904-1905) e também estavam sendo derrotados pelos alemães e seus aliados austro-hungaros durante a Primeira Guerra Mundial.

Era evidente que diante desse quadro de atraso, profunda injustiça social e ausência de democracia, uma revolução era inevitável. Então, em 22 de fevereiro de 1917(segundo o calendário juliano), eclodiu espontaneamente em Petrogrado, capital da Rússia naquela época, uma revolução popular que logo recebeu adesão dos soldados e sub-oficiais aquartelados na cidade. Formou-se então o Soviete de soldados e trabalhadores de Petrogrado, que assumiu o controle da capital. Outros sovietes foram surgindo pela Rússia, e o Czar Nicolau II abdicou ao trono em 27 de fevereiro. Foi formado um governo provisório, composto por liberais, socialistas revolucionários e pelos mencheviques. Esse governo garantiu as liberdades democráticas que acabaram possibiltando o retorno de Lênin e de Trotsky do exílio.

Ao retornar do exílio, Lênin ordenou que os bolcheviques fizessem oposição a esse governo provisório, que sofria também a oposição dos anarquistas. E defendeu a radicalização ao afirmar a necessidade de uma revolução socialista, com a palavra de ordem "Todo Poder aos Sovietes". E como o Exército era controlado pelo soviete e não pelo governo provisório, a situação se desestabilizou.

Os bolcheviques eram marxistas e defendiam uma revolução socialista na Rússia, que segundo eles serviria como o estopim de uma revolução socialista no restante da Europa. Eram liderados por Lênin. Os mencheviques também eram marxistas, mas ao contrário dos bolcheviques(que defendiam uma revolução socialista na Rússia), os mencheviques afirmavam que deveria ocorrer primeiro uma revolução democrática, que possibilitasse o desenvolvimento do capitalismo no país, e apenas após isso ocorrer é que poderia haver uma revolução socialista. Os socialistas revolucionários defendiam o campesinato, e apesar de serem socialistas, não eram marxistas. Eram contrários a eliminação de toda a propriedade privada, defendendo apenas a socialização dos grandes meios de produção e a reforma agrária. Representavam uma espécie de populismo de esquerda.

O governo provisório manteve a Rússia na guerra, assim como não promoveu a reforma agrária, afirmando que apenas após o estabelecimento de uma Assembléia Constituinte, poderia ser realizada a reforma agrária e outras medidas de cunho social. Recebeu a oposição dos bolcheviques e dos anarquistas. O apoio popular a esse governo também era nulo, uma vez que os trabalhadores exigiam o fim da guerra, e os camponeses exigiam a reforma agrária(inclusive já estavam realizando na marra, promovendo violentas invasões de terra e o assassinato de latifundiários).

Em agosto de 1917, o comandante do Exército Russo, general Kornilov, tentou dar um golpe e derrubar o governo provisório, pois acreditava que o país estava um caos e era necessário restabelecer a ordem, acabando com os sovietes, restabelecendo a disciplina militar entre as tropas, e executando Lenin e demais lideres revolucionários de esquerda. Caso o golpe tivesse triunfado, a Rússia teria se tornado uma ditadura militar e muito provavelmente iria caminhar em direção ao fascismo. Felizmente o lider do governo provisório, o socialista revolucionário Alexander Kerensky, decidiu armar os trabalhadores para defender a revolução, incluindo os anarquistas e os bolcheviques. Em setembro, o general Kornilov foi derrotado e preso, com os bolcheviques assumindo a direção da maioria dos sovietes. Assim os bolcheviques conquistaram a hegemonia junto ao proletariado russo, uma vez que participaram ativamente da luta contra Kornilov, defendiam a retirada da Rússia da Primeira Guerra Mundial, e a reforma agrária(ao retornar do exílio, Lenin prometeu ao povo "Pão, Paz e Terra"), além de ser bem melhor organizados do que os anarquistas e outras forças da esquerda contrárias ao governo provisório.

Em 25 de outubro de 1917(segundo o calendário juliano), os bolcheviques realizaram a primeira revolução socialista da história. Na manhã desse dia, revolucionários bolcheviques comandados por Leon Trotsky, ocuparam os principais prédios públicos da capital russa naquela época, a cidade de Petrogrado. A tarde, tropas bolcheviques atacaram o Palácio de Inverno, sede do governo provisório, encontrando pouca resistência. O lider desse governo, Alexander Karensky, conseguiu fugir. O governo provisório foi deposto. A noite, em reunião do Congresso de Sovietes de toda Rússia, foi anunciado o estabelecimento da Rússia Soviética, com a formação do governo socialista liderado pelo Conselho de Comissários do Povo, que era presidido por Lênin. A Duma, ou seja, o "parlamento burguês" foi dissolvido e o poder passou para as mãos do Congresso de Sovietes de Toda Rússia, que era dominado pelos bolcheviques.

Em 3 de Novembro, o governo bolchevique promulgou o Decreto sobre o Controle Operário. Esse documento instituía a autogestão em todas as empresas com 5 ou mais empregados. Isto acelerou a tomada do controle de todas as esferas da economia por parte dos conselhos operários, e provocou um caos generalizado, ao mesmo tempo que acelerou ainda mais a fuga dos proprietários para o exterior. Durante os meses que se seguiram, o governo bolchevique procurou então submeter os vários conselhos operários ao controle estatal, por meio da criação de um Conselho Pan-Russo de Gestão Operária. Os anarquistas se opuseram a isto, mas foram voto vencido.
 
O governo bolchevique tomou uma série de medidas de impacto entre novembro de 1917 e março de 1918, como por exemplo.
 
Pedido de paz imediata: em março de 1918, foi assinado, com a Alemanha, o Tratado de Brest-Litovski, que tirou a Rússia da Primeira Guerra Mundial. Segundo esse tratado, a Rússia abriu mão do controle sobre a Finlândia, Países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), Polônia, Bielorússia e Ucrânia, bem como de alguns distritos turcos e georgianos antes sob seu domínio.


Confisco de propriedades privadas: grandes propriedades foram tomadas dos aristocratas e da Igreja Ortodoxa, para serem distribuídas entre o povo.


Declaração do direito nacional dos povos: o novo governo comprometeu-se a acabar com a dominação exercida pelo governo russo sobre regiões tais como a Finlândia, a Geórgia ou a Armênia.


Estatização da economia: o novo governo passou a intervir diretamente na vida econômica, nacionalizando diversas empresas.


O GOLPE CONTRA A CONSTITUINTE
 
Era consenso entre todos os partidos políticos da esquerda russa, incluindo o Partido Bolchevique, de que seria necessária a criação de uma Assembléia Constituinte. As eleições para essa assembléia ocorreram em 25 de Novembro de 1917, e à exceção dos liberais do Partido Constitucional Democrata, que representava a burguesia e por isso foram "perseguidos" pelo governo bolchevique, todos os outros partidos puderam participar livremente. Mesmo perseguidos, os liberais conseguiram eleger 17 deputados, conquistando 4,8% dos votos. Os Socialistas Revolucionários receberam 41% dos votos, elegendo 380 deputados, enquanto os bolcheviques só conseguiram 25% dos dos votos, elegendo 168 deputados. Os mencheviques e demais partidos restantes receberam muito poucos votos.
 
Em 26 de Dezembro, Lênin publicou suas Teses sobre a Assembléia Constituinte, onde ele defendia os sovietes como uma forma de democracia superior à Assembléia Constituinte.
 
Em 5 de janeiro de 1918, a Assembléia Constituinte se reuniu pela primeira e única vez, pois a noite foi dissolvida pelo governo bolchevique. Essa dissolução se deu sem a aprovação dos sovietes, portanto foi claramente um golpe de estado. E pior, a partir disso os bolcheviques passaram a perseguir os socialistas revolucionários, os mencheviques e os anarquistas, tornando os sovietes uma correia de transmissão do Partido Comunista da Rússia, novo nome do Partido Bolchevique.

Com a eclosão da guerra civil em 1918, o governo soviético proibiu todos os partidos, com excessão do Partido Comunista da Rússia. Mas apesar desse desvio autoritário, ainda havia uma certa liberdade no país, tanto que Trotsky, o lider do Exército Vermelho, era contrário a Nova Política Economica(NEP na sigla em inglês), mas nem por isso sofreu algum tipo de perseguição.

O Exército Vermelho, organizado por Trotsky, era leal a revolução socialista e ao governo soviético liderado por Lênin. O Exército Branco era formado por oficiais e soldados czaristas, que com apoio das potências imperialistas, buscavam derrotar a revolução e reestabelecer a monarquia czarista. A guerra civil foi violenta, com ambos os exércitos promovendo massacres contra a população civil.

A guerra terminou em 1921, com a vitória do Exército Vermelho. Em dezembro de 1922, os comunistas estabeleceram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas(URSS), unindo a Rússia e demais repúblicas soviéticas(as antigas provincias imperiais), sobre direção do governo soviético em Moscou.

Em março de 1921, os bolcheviques corrigiram a equivocada política do "comunismo de guerra", adotada após a vitória da revolução socialista e que tentava estabelecer o socialismo por decreto, adotando a Nova Política Economica(NEP na sigla em inglês), que representava um recuo seguindo a política de "um passo atrás e dois passos adiante", que permitiu a recuperação da economia soviética após o término da guerra civil.

O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, transformando a URSS em uma ditadura totalitaria e burocratica. Josef Stalin era o secretário geral do Partido Comunista da Rússia desde 3 de fevereiro de 1922, e quando Lênin sofreu o terceiro enfarte que o deixou inconsciente, em março de 1923, Stalin formou com Grigory Zinoviev, e com Lev Kamenev, um triunvirato que assumiu a direção do governo soviético.

Após a morte de Lenin, ocorrida em 21 de janeiro de 1924, começou uma batalha feroz na burocracia do partido para ver quem iria sucede-lo. Stalin saiu na frente e após derrotar Trotsky(que foi expulso do partido comunista em 1927, e posteriormente expulso do país em 1929), e afastar outros adversários dos principais postos de direção, assumiu o poder absoluto em 1928.

Stalin acabou com a Nova Política Economica e lançou o primeiro plano quinquenal nesse mesmo ano de 1928, com o objetivo de priorizar a rapida industrialização e "edificar o socialismo", passando para o Estado o controle de toda a atividade econômica. Toda propriedade dos meios de produção, distribuição e troca foi estatizada. Em 1929-1930, Stalin dedica-se à coletivização da agricultura, liquidando camponeses - pequenos, médios ou grandes proprietários de terras. Cerca de 10 milhões são executados ou morrem de fome, e outros são deportados em massa com suas famílias.

E foi justamente o término da NEP, com a adoção da política de industrialização acelerada respaldada na expropriação dos camponeses, promovida por Stalin a partir de 1929, que teve início a completa degeneração do marxismo, descaracterizando por completo o socialismo.

" ... Stalin passa a implementar medidas de coletivização forçada da agricultura, apoiadas numa duríssima repressão contra os camponeses. Sabe-se hoje que essa política voluntarista e duramente coercitiva - que o próprio Stalin chamou de "revolução pelo alto" - levou à morte cerca de 10 milhões de camponeses. Por outro lado, a industrialização acelerada promovida pelos famosos planos qüinqüenais, embora tenha tido importantes resultados quantitativos, produziu fome e gerou opressão sobre os trabalhadores urbanos. Conheceu-se assim, na URSS dos anos 30, um período de intensa superexploração da força de trabalho, tanto camponesa quanto operária. Tudo isso levou à construção de um regime de terror na União Soviética." (Carlos Nelson Coutinho; em "Atualidade de Gramsci") 


Stalin liquidou cerca de dois terços dos quadros do Partido Comunista da URSS, incluindo a "velha guarda" bolchevique, como os revolucionários Nikolai Bukharin, Grigory Zinoviev, e Lev Kamenev(a família de Kamenev também acabou executada, só um de seus filhos sobreviveu aos expurgos do governo Stalin). Leon Trotsky, expulso da URSS em 1929, foi assassinado por um agente stalinista em 1940, no México, onde se encontrava exilado. O filho de Trotsky, Leon Sedov, também foi assassinado por um agente stalinista em Paris.
 
Stalin também liquidou cerca de 5.000 oficiais do Exército acima da patente de major, 13 de 15 generais de cinco estrelas do Exército Vermelho – criado durante a Revolução Russa por Leon Trotsky, seu dissidente mais conhecido – e inúmeros civis, considerando-os todos "inimigos do povo".

"É provável que a dimensão desse violento expurgo se devesse a um acerto de contas de Stalin com Trotsky, visto que foi o seu rival quem forjou o Exército Vermelho durante a guerra civil de 1918-21. O objetivo final seria a stalinização total da organização militar, que até então ficara fora dos expurgos que abateram o partido e a polícia secreta ao longo dos anos trinta." (Robert Conquest - O Grande Terror, pag. 478-9)  

É provável que algumas das vítimas de fato fossem dissidentes de suas reformas econômicas (conhecidas como Planos Qüinqüenais), mas a grande maioria das vítimas não apresentava nenhum indício de oposição ao ditador soviético.

Em 1941, a Alemanha nazista invadiu a URSS. A Heróica resistência do Exército Vermelho foi fundamental para a derrota dos nazistas, que foram expulsos do território soviético em 1944. Em 2 de maio de 1945, os soviéticos tomaram Berlim, e seis dias depois, os alemães se renderam. Cerca de 20 milhões de soviéticos morrearam na Segunda Guerra Mundial.

Stalin morreu em março de 1953, e seu sucessor no cargo de secretário geral do Partido Comunista da URSS, Nikita Kruschev, denunciou no XX Congresso do partido, realizado em fevereiro de 1956, o "culto da personalidade" stalinista e os crimes promovidos por Stalin. Tinha início a desestalinização, que não democratizou a URSS, mas ao menos deu fim ao terror monstruoso e desumano da era stalinista.  
"O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática." (Emiliano José; em "O stalinismo e sua trágica herança") 
Após a desestalinização promovida por Kruschev, a URSS continuou sendo uma ditadura burocratica de partido único, que mesmo realizando grandes façanhas como lançar o primeiro satélite artificial(o Sputnik, em 1957), e colocar o primeiro homem no espaço(Yuri Gagarin, em 1961), acabou não sendo capaz de acompanhar o progresso das nações capitalistas. Nos anos 80, Gorbatchev tentou retomar essa política de desestalinização, com objetivo de democratizar a URSS e acabar com a burocratização do Estado. Mas as reformas que realizou acabaram fracassando, e em dezembro de 1991, a URSS deixou de existir. Hoje a Rússia é um país capitalista, onde ainda não existe uma autêntica democracia.
"A Revolução Russa foi a primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro, uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de atitudes.    
Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo. (...)
    
Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir uma sociedade igualitária."
    
(Marly A. G. Vianna, professora de História da Universidade Federal de São Carlos; em "90 Anos da Revolução Russa") 

DIMMU BORGIR - Dimmu Borgir



"“Deus”, “imortalidade da alma”, “redenção”, “além”, todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei meu tempo, nem mesmo em criança; talvez nunca fosse bastante ingênuo para fazê-lo? Para mim o ateísmo não é nem uma conseqüência, nem mesmo um fato novo: existe comigo por instinto. Sou bastante curioso, suficientemente incrédulo, demasiado insolente para contentarme com uma resposta tão grosseira. Deus é uma resposta rude, uma indelicadeza contra nós, pensadores; antes, dizendo-se a verdade, não é senão um tosco empecilho contra nós mesmos: não deveis cogitar dele!" 

(Friedrich Wilhelm Nietzsche)

Matéria da terceira série



O filósofo Friedrich Nietzsche acreditava que a base racional da moral era uma ilusão e por isso, descartou a noção de homem racional. O mundo para Nietzsche não é ordem e racionalidade, mas desordem e irracionalidade. Seu princípio filosófico não era portanto Deus e razão, mas a vida que atua sem objetivo definido, ao acaso, e por isso se está dissolvendo e transformando-se em um constante devir. A única e verdadeira realidade sem máscaras, para Nietzsche, é a vida humana tomada e corroborada pela vivência do instante.

Nietzsche era ateu e opositor radical da fé e moral cristã. Ele considerava o cristianismo e o budismo como "as duas religiões da decadência", embora afirmasse haver uma grande diferença nessas duas concepções. O budismo para Nietzsche "é cem vezes mais realista que o cristianismo".
"A diferença fundamental entre as duas religiões da decadência: o budismo não promete, mas assegura. O cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada." (Friedrich Wilhelm Nietzsche)
"O cristianismo foi, até o momento, a maior desgraça da humanidade, por ter desprezado o Corpo." (Friedrich Wilhelm Nietzsche)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Matéria da terceira série



O filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche era opositor do socialismo e de todas as doutrinas igualitaristas. Ele condenava "a moral que impele à revolta dos indivíduos inferiores, das classes subalternas e escravas contra a classe superior e aristocrática que, por um lado, pelo influxo dessa mesma moral, sofre de má consciência e cria a ilusão de que mandar é por si mesmo uma forma de obediência". Para ele, os ideais modernos como democracia, socialismo, e emancipação feminina não eram senão expressões da decadência do "tipo homem".

Nietzsche afirma que a vida só se pode conservar e manter-se através de imbricações incessantes entre os seres vivos, através da luta entre vencidos que gostariam de sair vencedores e vencedores que podem a cada instante ser vencidos e por vezes já se consideram como tais. Neste sentido a vida é vontade de poder ou de domínio ou de potência. Vontade essa que não conhece pausas.
"Em qualquer lugar onde encontro uma criatura viva, encontro desejo de poder." (Friedrich Nietzsche)
Segundo Nietzsche, o homem é um filho do "húmus" e é, portanto, corpo e vontade não somente de sobreviver, mas de vencer. Suas verdadeiras "virtudes" são: o orgulho, a alegria, a saúde, o amor sexual, a inimizade, a veneração, os bons hábitos, a vontade inabalável, a disciplina da intelectualidade superior, a vontade de poder. Mas essas virtudes são privilégios de poucos, e é para esses poucos que a vida é feita.


OBS: Húmus é a matéria orgânica depositada no solo, resultante da decomposição de animais e plantas mortas, ou de seus subprodutos.


"O Super-Homem"

Termo originado do alemão Übermensch, o conceito de 'Super-Homem'  foi desenvolvido pelo filósofo Nietzsche, para designar o homem que rompe com as normas idealistas. Se você é um super-homem, não precisa de Deus.
"O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem: uma corda por cima do abismo; perigosa travessia. Perigoso Caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso parar e tremer. O que é de grande valor no homem é o fato de ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento."  (Friedrich Nietzsche)
A figura de Nietzsche foi particularmente promovida na Alemanha nazista, tendo sua irmã, simpatizante do regime hitleriano, fomentado esta associação. Deturpando o pensamento de Nietzsche, os nazistas identificaram o conceito de 'Super-Homem' com a "raça ariana".

OBS: Friedrich Nietzsche era explicitamente contrário ao movimento anti-semita, posteriormente promovido por Adolf Hitler e seus partidários. O racismo não pode ser encontrado no pensamento nietzscheano autêntico.