Para responder essas perguntas, devemos apresentar os cinco problemas que a epistemologia busca resolver:
- O problema analítico: O que é o conhecimento? (Ou se preferirmos, o que entendemos ou devemos entender por "conhecimento"? Por exemplo, como se distingue (ou se deve distinguir) o conhecimento da simples crença ou opinião? O que aqui se pretende, é uma explicação precisa ou "análise" do "conceito" de conhecimento.
- O problema da demarcação: Este divide-se em dois problemas: a) O problema "externo" pergunta: sabendo-se de algum modo o que é o conhecimento, poderemos determinar que coisas podemos razoavelmente esperar conhecer? Ou poderemos determinar o âmbito e os limites do conhecimento humano? Será que há assuntos acerca dos quais podemos ter conhecimento, enquanto há outros acerca dos quais não podemos ter mais do que opinião (ou fé)? b) O problema "interno" pergunta se há fronteiras significativas no interior do domínio do conhecimento. Por exemplo, muitos filósofos têm defendido que há uma distinção fundamental entre o conhecimento a posteriori ou "empírico" e o conhecimento a priori ou "não empírico". O conhecimento empírico depende (de uma forma ou de outra) da experiência ou observação, ao passo que o conhecimento a priori é independente da experiência, fornecendo a matemática o exemplo mais claro. Contudo, outros filósofos negam que se possa fazer tal distinção.
- O problema do método: Este relaciona-se com o modo como obtemos ou procuramos conhecimento.
- O problema do ceticismo: Será de fato possível obter algum conhecimento? Este problema é difícil porque há argumentos poderosos, alguns bastante antigos, a favor da resposta negativa. Por exemplo, embora o conhecimento não possa assentar em pressupostos brutos, todos os argumentos têm de acabar por chegar ao fim. Parece que, em última análise, as opiniões das pessoas assentam em indícios que elas não podem justificar e não podemos considerar conhecimento genuíno. O problema que aqui se coloca, então, é o de conhecer os argumentos do ceticismo filosófico, a tese que defende a impossibilidade do conhecimento. Uma vez que há uma ligação forte entre conhecimento e justificação, o problema do ceticismo está intimamente ligado ao problema da justificação.
- O problema do valor: Os problemas esboçados são significativos somente se faz sentido possuir conhecimento. Supondo que sim, para que o queremos? Queremo-lo de qualquer forma, ou por causa de determinados objetivos e em determinadas situações? O conhecimento é o único objetivo da investigação, ou há outros com igual (ou maior) importância?
Se o conhecimento não tivesse importância, não perderíamos tempo a imaginar como o definir, como o obter, nem a traçar linhas à sua volta. Nem nos interessaria refutar o cético. A preocupação com o conhecimento (ou com realidades afins) está de tal modo enraizada na nossa tradição ocidental que não é opcional. Esta tradição, que nos seus aspectos filosóficos e científicos, tem as suas origens na Grécia clássica, é globalmente e no seu sentido mais lato uma tradição racionalista e crítica. A ciência e a filosofia começam quando as ideias acerca da origem e natureza do universo se separam do mito e da religião e são tratadas como teorias que se podem discutir: isto é, comparadas com (e porventura superadas por) teorias concorrentes. Como observou o filósofo Karl Popper, esta abordagem globalmente racionalista para compreender o mundo pode ser considerada como um tipo de tradição de "segunda ordem": o que conta não são crenças particulares — encaradas como sagradas, ancestrais, e desse modo mais ou menos inquestionáveis — mas a prática do exame crítico das ideias correntes para que se possa reter apenas o que fica depois da inspecção. Ter herdado esta tradição explica a nossa tendência para contrastar conhecimento com preconceito ou com a (simples) tradição.
Fonte: Michael Williams, professor de epistemologia da Universidade de Johns Hopkins.
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