“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.” (Marilena Chaui)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Matéria da segunda série

CETICISMO

Descartes procurava verdades que nenhum cético pudesse desafiar. Para descobri-las, começou por adotar um método de dúvida cética, rejeitando todas as crenças que poderiam, sob qualquer condição imaginável, ser falsas ou duvidosas. Rejeitou prontamente as crenças baseadas nos sentidos porque estes às vezes nos enganam. Rejeitou as crenças sobre a realidade física porque o que consideramos ser tal realidade pode fazer apenas parte de um sonho. Rejeitou as crenças baseadas no raciocínio porque podemos ser sistematicamente enganados por uma força demoníaca.

Mas Descartes passou a perguntar se podemos duvidar ou rejeitar a crença na nossa própria existência. Aqui descobrimos que toda tentativa de o fazer é imediatamente anulada pela nossa consciência de que, nós mesmos, estamos duvidando. Assim, a primeira verdade que Descartes alegou que não poderia ser colocada em dúvida foi “penso, logo existo” (o cogito). A partir desta verdade alguém poderia extrair o critério de que tudo o que concebemos clara e distintamente é verdadeiro. Usando este critério, estabelecemos que Deus existe, que é todo-poderoso, o criador de tudo o que existe, e que, porque é perfeito, não nos pode enganar. Portanto, tudo o que Deus nos faz acreditar clara e distintamente tem de ser verdadeiro.

O sistema de Descartes foi criticado por Gassendi, Hobbes e Mersenne por se basear em dogmas injustificados e injustificáveis. Por que não poderia um Deus todo-poderoso enganar-nos? Como sabemos que não existe uma verdade para Deus ou para os anjos que é diferente da que somos forçados a aceitar como verdadeira? Por que tem de ser verdadeiro na realidade, e não apenas nas nossas mentes, o que concebemos clara e distintamente? Como sabemos que toda a nossa imagem subjetiva do mundo, por mais certeza que tenhamos, não é apenas uma ilusão nossa? Descartes respondeu que levar estas perguntas a sério era fechar a porta à razão. Mas este argumento da catástrofe não respondia realmente aos desafios céticos.

Hume desenvolveu um ceticismo mais abrangente. Nada podemos conhecer além das impressões e idéias. O nosso conhecimento causal, tudo o que nos leva para lá da nossa experiência imediata, não se baseia em qualquer princípio racional ou justificável, mas apenas numa tendência psicológica natural e inalterável para ter a expectativa de que as experiências futuras se assemelhem às que tivemos no passado. Qualquer tentativa para defender as nossas crenças inevitáveis em causas, no mundo exterior, ou num eu real constitutivo em nós, conduz ao absurdo e à contradição. Assim, somos conduzidos por qualquer investigação das nossas crenças a um ceticismo total, mas a natureza não nos deixa aí; não podemos deixar de acreditar. Assim, conclui Hume, é devido a uma fé animal que nos mantemos vivos e é ela que acalma as nossas irresistíveis dúvidas céticas.

Kant afirmou que Hume o despertou de seu sono dogmático e o fez ver quão incertas são as nossas alegações de conhecimento. Mas insistiu que Hume tinha feito a pergunta errada. Temos conhecimento inquestionável que nos diz algo sobre toda a experiência possível, como, por exemplo, que toda a experiência será temporal e espacial. Como é tal conhecimento possível, se não podemos ir além do nosso mundo da experiência? Kant insistiu que a experiência é a combinação do modo como a projetamos e do seu conteúdo. Há formas de todas as percepções possíveis, e estas são categorias por meio das quais fazemos juízos sobre todas as experiências possíveis. Se estas correspondem a um mundo além da experiência, não podemos saber, mas podemos analisar o que podemos estar seguros quanto à experiência possível. Portanto, podemos ter algum tipo de conhecimento, mas nenhum conhecimento das coisas-em-si.

Kant propôs a sua filosofia crítica como uma maneira de resolver os problemas céticos internos à filosofia moderna.

Fonte: Retirado de Jonathan Dancy e Ernest Sosa (org.) A Companion to Epistemology (Oxford: Blackwell, 1997, pp. 719-721).

terça-feira, 3 de maio de 2011

Matéria da terceira série

O fracasso do socialismo soviético deveu-se a dois fatores: o primeiro foi a ausência de democracia, e o segundo foi a completa estatização da economia, pois ao invés de socializar a propriedade dos meios de produção, os bolcheviques na verdade a estatizaram, o que contribuiu decididamente para a burocratização do Estado socialista.

Durante a Guerra Civil Russa(1918-1921), os bolcheviques buscaram construir o socialismo por decreto, estabelecendo a completa estatização da economia e o sistema de requisições forçadas de todo excedente agricola. Era o chamado "Comunismo de Guerra", que acabou promovendo a ruptura da aliança operário-camponesa. Os camponeses estavam dispostos a pagar um tributo à revolução (em percentagem da colheita), porque não queriam perder suas terras, permitindo uma restauração czarista, mas não queriam entregar todo o excedente agrícola, arbitrado segundo critérios extorsivos pelos agentes do poder soviético vindos da cidade.

O resultado foi a eclosão de várias revoltas no campo, sufocadas brutalmente pelo Exército Vermelho, e a fome que tomou conta do país, pois o campesinato deixou de produzir.

A NOVA POLÍTICA ECONOMICA

"O socialismo não pode ser imposto por decreto: é um processo em desenvolvimento". (Salvador Allende)

Felizmente os bolcheviques corrigiram esse erro ao estabelecer a Nova Política Economica, cuja sigla em inglês era NEP. Uma economia mista, onde o mercado e a planificação economia coexistem, com a propriedade social e estatal sendo implementada nos setores estratégicos, enquanto a pequena e média propriedade privada continuavam funcionando em outros setores, especialmente na agricultura, sobre a regulação do Estado proletário.

Mas infelizmente a burocracia já existente e a própria cultura do bolchevismo não permitiram que essa política fosse consolidada. Então em 1928, Stalin promoveu uma 'guinada esquerdista', adotando a coletivização forçada no campo e a completa estatização da economia, restabelecendo dessa forma a política equivocada de construção do socialismo por decreto. Com isso foi promovido um verdadeiro massacre no campo, onde morreram mais de 10 milhões de camponeses, seja em virtude da repressão ou pela fome. O campesinato acabou regredindo a condição de servidão, o que acabou promovendo a ruptura definitiva da aliança operário-camponesa, levando o partido comunista a se afastar das massas e a burocracia se consolidar no poder absoluto.

Esses dois fatores, ausência de democracia política e completa estatização da economia, constituem a base da burocratização do Estado soviético, e consequentemente dos demais Estados que seguiram esse modelo, o que levou a derrota da primeira experiência de construção do socialismo.

O socialismo não pode ser construido por decreto, precisa ser construido processualmente, como a própria história comprova ao observarmos o sucesso da Nova Política Economica, adotada entre 1921 e 1928. Uma economia mista, onde o mercado e a planificação democrática da economia coexistem, com a propriedade social e não estatal sendo implementada nos setores estratégicos, enquanto a pequena e média propriedade privada continuam funcionando em outros setores, sobre a regulação do Estado proletário.

A esquerda precisa romper com a herança stalinista, abandonando o fetiche pelo estatismo. O mercado e a propriedade privada devem coexistir com a planificação e com a propriedade coletiva na futura sociedade socialista, principalmente na sua fase inicial.


"O socialismo não pode, nem deve eliminar o mercado de imediato. Precisará conviver com o mercado e tirar proveito dele durante um tempo certamente longo. Só que, para ser compatível com o socialismo, precisará ser um mercado regulado, direcionado pelo planejamento do Estado e refreado no que se refere aos aspectos socialmente negativos." (Jacob Gorender; em Teoria e Debate nº 16)

SOCIALISMO RENOVADO

A alternativa para a construção do socialismo renovado, sem os vicios do stalinismo, eu acredito existir na obra de Antonio Gramsci, que não se deixou contaminar pelo esquerdismo(a doença infantil do comunismo), e muito menos pelo dogmatismo.

Gramsci desenvolveu a teoria marxista-leninista para a realidade das sociedades capitalistas desenvolvidas, chamadas por ele de sociedades do tipo "ocidental", onde a disputa da hegemonia na sociedade é fundamental. Isso porque nessas sociedades, ocorreu a chamada "socialização da política", o que ampliou o poder político(que antes era limitado aos palácios) para a chamada "sociedade civil". Portanto não basta palavras de ordem "radicais" contra o capitalismo, muito menos a convocação de greves e manifestações para se desencadear um processo revolucionário. Precisa-se antes disputar a hegemonia na sociedade, conquistando o coração e mente das massas proletárias.

A partir das reflexões de Gramsci é possível desenvolver um conceito democrático de socialismo, fundado no consenso e não somente na coerção, promovendo assim a verdadeira superação do stalinismo, refundando o marxismo segundo a realidade da luta de classes no século XXI.

"Distinguindo-se dos social-democratas que se opuseram à revolução bolchevique e à União Soviética (Kautsky, Bernstein e tantos outros), Gramsci - tal como Rosa Luxemburg -- defende a necessidade da revolução e se solidariza, ainda que criticamente, com seus primeiros passos. Mas, ao mesmo tempo, dissocia-se claramente dos rumos que a União Soviética começou a tomar a partir dos anos 30, quando a estatolatria se tornou "fanatismo teórico" e converteu-se em algo "perpétuo", consolidando assim um "governo dos funcionários" que, ao reprimir a sociedade civil e as possibilidades do autogoverno democrático dos cidadãos, gerou um despotismo burocrático que nada tinha a ver com os ideais emancipadores e libertários do socialismo marxista. (...)

...Gramsci nos propõe um outro modelo de socialismo, um modelo no qual o centro da nova ordem deve residir não no fortalecimento do Estado, mas sim na ampliação da "sociedade civil", de um espaço público não estatal. Na "sociedade regulada" - o belo pseudônimo que encontrou para designar o comunismo --, Gramsci supõe (e volto a citá-lo) que "o elemento Estado-coerção pode ser imaginado como capaz de se ir exaurindo à medida que se afirmam elementos cada vez mais numerosos de sociedade regulada (ou Estado-ético, ou sociedade civil)". Ora, como se sabe, as instituições próprias da sociedade civil são o que Gramsci chama de "aparelhos ''privados'' de hegemonia", aos quais se adere consensualmente; e é precisamente essa adesão consensual o que os distingue dos aparelhos estatais, do "governo dos funcionários", que impõem suas decisões coercitivamente, de cima para baixo. Portanto, afirmar "elementos cada vez mais numerosos" de sociedade civil significa ampliar progressivamente o âmbito de atuação do consenso, ou seja, de uma esfera pública intersubjetivamente construída, fazendo assim com que as interações sociais percam cada vez mais seu caráter coercitivo." (Carlos Nelson Coutinho; em "Atualidade de Gramsci")


O revolucionário marxista italiano Antonio Gramsci era defensor da Nova Política Economica(NEP, na sigla em inglês), se posicionando contra as posições esquerdistas de Trotsky, mas sem aderir ao stalinismo. Assim como o revolucionário bolchevique Nikolai Bukharin, Gramsci via na NEP, o caminho para a construção do socialismo.

Matéria da terceira série

STALINISMO E TROTSKISMO

"Um olhar retrospectivo sobre o século passado não pode se omitir sobre o trágico legado do stalinismo. A esquerda em especial não tem o direito de ignorá-lo. Tal herança pesa como um fardo sobre ela, mesmo já havendo uma alentada produção teórica de condenação dos anos em que Stalin esteve à frente da URSS, principalmente após o final dos anos 20 e até sua morte, em 1953. (...)

Para a esquerda, é necessário resistir à tentação de refugiar-se num tempo de ouro, na nostalgia de um tempo feliz, que não existiu, ao contrário. O stalinismo foi um tempo de terror, de esmagamento dos adversários pela violência, marcado pela ausência da política, ao menos se esta for entendida como o reino da liberdade, e não da força bruta.

O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática."

(Emiliano José; em "O stalinismo e sua trágica herança")

O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, transformando a União Soviética(URSS) em uma ditadura totalitaria e burocratica, responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Também foi responsável pela morte de milhares de pessoas, nos países do Leste Europeu onde o Exército Vermelho estabeleceu regimes socialistas após a Segunda Guerra Mundial.

O revolucionário bolchevique Leon Trotsky era opositor do stalinismo, motivo pelo qual foi expulso da URSS, em 1929. No exílio, organizou um movimento comunista dissidente, a IV Internacional. Acabou sendo assassinado por um agente stalinista em 1940, no México, onde estava exilado. Mas apesar disso, Trotsky defendia as mesmas políticas totalitarias que Stalin imprementou depois que assumiu o poder absoluto em 1929. A diferença entre trotskismo e stalinismo residia no fato de Stalin defender a política do socialismo em um só país, ou seja, os revolucionários bolcheviques deveriam construir o socialismo apenas na URSS, e aguardar que outras revoluções ocorressem. Já Trotsky defendia que a revolução fosse exportada para a Europa Ocidental, e somente a partir disso que o socialismo poderia ser construido. A tese de Trotsky era inconsequente, pois a Rússia estava arrasada devido a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil, e o fracasso da política do "comunismo de guerra". Não havia a menor condição dos soviéticos exportarem a revolução, até porque a revolução havia sido derrotada na Alemanha e na Hungria. E na Itália, a ascenção do fascismo promoveu a derrota do movimento operário revolucionário.

O autoritarismo de Trotsky

Em 1920-21, Leon Trotsky defendeu a militarização do trabalho e a estatização dos sindicatos, assim como uma política de industrialização acelerada baseada na expropriação do campesinato. Foi sempre um opositor da Nova Política Economica(ou NEP, na sigla em inglês), defendendo a construção do socialismo "por decreto", como Stalin acabou realizando.

"A discussão em torno do papel do Estado, sua relação com os sindicatos, a autonomia da classe operária, nada disso fora palavrório oco. Lênin, com a NEP, propunha agora um outro caminho, com maior liberdade para a cidade e o campo, recuperando o papel do mercado, compreendendo que o capitalismo ainda tinha fôlego para se desenvolver numa sociedade que ele acreditava estar caminhando para o socialismo. Trotsky tinha outra visão, que mais tarde, ironicamente, será integralmente adotada por seu mais visceral inimigo, Stalin. Está certo Deutscher quando afirma não haver praticamente nenhum aspecto do programa sugerido por Trotsky em 1920-21 que Stalin não tenha usado durante a industrialização acelerada da década de 1930. Adotou o recrutamento forçado, subordinou os sindicatos, estimulou a disputa de produção entre os trabalhadores, na linha do taylorismo soviético defendido por Trotsky."

(Emiliano José; em "Trotsky: do pomar para a Revolução")


A política autoritária defendida por Trotsky, foi derrotada por Lenin, que defendeu a aprovação da Nova Política Economica(ou NEP, na sigla em inglês). Mas infelizmente Stalin acabou ressuscitando essa política autoritária em 1929, após derrotar Trotsky e demais adversários. Portanto a verdade que muitos comunistas insistem em não enxergar, é o fato de Trotsky ter sido um dos primeiros a defender políticas extremamente autoritárias entre os bolcheviques(como por exemplo, a estatização dos sindicatos e a militarização do trabalho), motivo pelo qual foi criticado pelo revolucionário Vladimir Lenin.

"Trotsky foi o principal defensor da fusão dos sindicatos ao Estado e, inclusive, a sua militarização. Ele aplicou seus métodos "revolucionários" quando foi responsabilizado pela reorganização dos serviços de transporte. Assumindo o controle absoluto do Comitê Central de Transporte, decretou imediatamente "estado de emergência" nas ferrovias, destituiu os dirigentes eleitos dos sindicatos e colocou todos os operários sob lei marcial.

Em 16 de dezembro de 1919, Trotsky apresentou no Comitê Central do Partido Bolchevique a sua tese "Sobre a transição entre a guerra e a paz", na qual reafirmou a necessidade de militarização dos sindicatos russos. Ele defendeu novamente as suas posições no IX congresso do PCRb. Na ocasião afirmou ele: "As massas trabalhadoras não podem vaguear através da Rússia. Devem ser enviadas para aqui e para ali, nomeadas, comandadas exatamente como soldados (...) O trabalho obrigatório deve atingir a sua maior intensidade durante a transição do capitalismo para o socialismo (...) É preciso formar patrulhas punitivas e pôr em campos de concentração os que desertam do trabalho". E concluiu: "O Estado Operário possui normalmente o direito de forçar qualquer cidadão a fazer qualquer trabalho em qualquer local que o Estado escolha."

Contra as posições autoritárias de Trotsky, Lênin escreveu os artigos "Sobre os Sindicatos, o momento atual e os erros de Trotsky" e "Mais uma vez sobre os sindicatos, o momento atual e os erros dos camaradas Trotsky e Bukharin". Afirmou ele: "os sindicatos são uma organização da classe dirigente, dominante e governante. Mas não são uma organização estatal, não são uma organização coercitiva, são uma organização educadora, uma organização que atrai e instrui, são uma escola, escola de governo, escola de administração, escola de comunismo". Portanto, não poderiam ser transformados em quartel ou prisão.

Lênin negou a tese trotskista de que a defesa dos interesses materiais e espirituais da classe operária não deveria ser de incumbência dos sindicatos em um Estado operário. Para ele isto era um grave erro. Afirmou Lênin: "O camarada Trotsky fala de 'Estado operário'. Permitam-me dizer que isto é pura abstração (...) comete-se um erro evidente quando se diz: Para que e ante quem defender a classe operária, se não há burguesia e o Estado é operário? Não se trata de um Estado completamente operário, aí está o xis do problema (...) Em nosso país, o Estado não é, na realidade, operário, e sim operário e camponês (...) Porém há mais alguma coisa (...) nosso Estado é operário com uma deformação burocrática (...) Pois bem, será que diante desse tipo de Estado (...) nada têm os sindicatos a defender? Pode-se dispensá-lo na defesa dos interesses materiais e espirituais do proletariado organizado em sua totalidade? Essa seria uma opinião completamente errada do ponto de vista teórico (...) Nosso Estado de hoje é tal que o proletariado organizado em sua totalidade deve defender-se, e nós devemos utilizar estas organizações operárias para defender os operários em face de seu Estado e para que os operários defendam nosso Estado"".

(Augusto César Buonicore; em "Lenin, os sindicatos e o socialismo")

Por isso afirmo que o trotskismo não é alternativa para a construção de um socialismo sem os vicios do stalinismo, mas sim o outro lado da mesma moeda. Os marxistas que defendem a luta revolucionária do proletariado para derrubar o capitalismo e construir uma nova sociedade, onde não mais exista a exploração do homem pelo homem, devem romper com essas duas concepções e devem buscar resgatar o pensamento marxista, renovando-o segundo a realidade da luta de classes no século XXI.

Para começar, devem recordar do revolucionário marxista Victor Serge, opositor do stalinismo, que mesmo apoiando a Revolução Russa e o bolchevismo, reconheceu que erros foram cometidos e afirmou que "as novas lutas anticapitalistas deverão assumir novas formas no futuro". Os dogmaticos de plantão, que acreditam ainda estarem vivendo no começo do século XX, deveriam acordar para a realidade a partir dessa afirmação de Victor Serge.

Matéria da terceira série


O socialismo soviético


"O czar era considerado dono de toda a Rússia, e todos os seus súditos deviam servi-lo. Não bastasse isso, havia um argumento religioso para justificar a autoridade do czar, e o poder deste era considerado sagrado. Como não existia separação entre Igreja e Estado, os sacerdotes da Igreja Ortodoxa (a religião oficial) eram pagos com o dinheiro dos impostos. Ou seja, dinheiro que em grande parte vinha do trabalho dos camponeses e operários.
     
Como se vê, o czar tinha mais em comum com os antigos reis absolutistas (como Luís XIV) do que com os soberanos das monarquias parlamentares (como a que existe hoje na Inglaterra). Apesar disso, ele era muito popular. O povo, mesmo quando se rebelava, punha a culpa dos problemas do país nos nobres, nos ministros, nos funcionários públicos, nos latifundiários ou (com muita freqüência, sendo nisso apoiados pela propaganda oficial) até nos judeus. A figura do czar era sempre poupada, pois se achava que ele era bondoso e que seus assessores não o deixavam saber da verdadeira situação."
     
(Tulio Vilela; em "Domingo sangrento, bolcheviques e mencheviques") 

A Rússia do tempo dos czares era um país semi-feudal, onde 80% da população era constituida por camponeses, que viviam em estado de extrema pobreza, assim como os trabalhadores das cidades. Enquanto isso, a nobreza e a burguesia vivia na extrema riqueza, e os czares eram autocratas, governando como monarcas absolutistas. E isso em pleno século XX.

Se não bastasse isso, em 9 de janeiro de 1905, uma manifestação pacífica organizada por um padre ortodoxo, foi brutalmente reprimida pela Guarda Imperial. Os manifestantes carregavam imagens religiosas e cantavam "Deus salve o Czar", exigindo melhores salários e redução da jornada de trabalho. Foram massacrados pelos soldados czaristas, no que ficou conhecido como "Domingo Sangrento". E além disso, o exército e a marinha da Rússia estavam condenados ao atraso, motivo pelo qual os russos perderam a guerra para os japoneses(1904-1905) e também estavam sendo derrotados pelos alemães e seus aliados austro-hungaros durante a Primeira Guerra Mundial.

Era evidente que diante desse quadro de atraso, profunda injustiça social e ausência de democracia, uma revolução era inevitável. Então, em 22 de fevereiro de 1917(segundo o calendário juliano), eclodiu espontaneamente em Petrogrado, capital da Rússia naquela época, uma revolução popular que logo recebeu adesão dos soldados e sub-oficiais aquartelados na cidade. Formou-se então o Soviete de soldados e trabalhadores de Petrogrado, que assumiu o controle da capital. Outros sovietes foram surgindo pela Rússia, e o Czar Nicolau II abdicou ao trono em 27 de fevereiro. Foi formado um governo provisório, composto por liberais, socialistas revolucionários e pelos mencheviques. Esse governo garantiu as liberdades democráticas que acabaram possibiltando o retorno de Lênin e de Trotsky do exílio.

Ao retornar do exílio, Lênin ordenou que os bolcheviques fizessem oposição a esse governo provisório, que sofria também a oposição dos anarquistas. E defendeu a radicalização ao afirmar a necessidade de uma revolução socialista, com a palavra de ordem "Todo Poder aos Sovietes". E como o Exército era controlado pelo soviete e não pelo governo provisório, a situação se desestabilizou.

Os bolcheviques eram marxistas e defendiam uma revolução socialista na Rússia, que segundo eles serviria como o estopim de uma revolução socialista no restante da Europa. Eram liderados por Lênin. Os mencheviques também eram marxistas, mas ao contrário dos bolcheviques(que defendiam uma revolução socialista na Rússia), os mencheviques afirmavam que deveria ocorrer primeiro uma revolução democrática, que possibilitasse o desenvolvimento do capitalismo no país, e apenas após isso ocorrer é que poderia haver uma revolução socialista. Os socialistas revolucionários defendiam o campesinato, e apesar de serem socialistas, não eram marxistas. Eram contrários a eliminação de toda a propriedade privada, defendendo apenas a socialização dos grandes meios de produção e a reforma agrária. Representavam uma espécie de populismo de esquerda.

O governo provisório manteve a Rússia na guerra, assim como não promoveu a reforma agrária, afirmando que apenas após o estabelecimento de uma Assembléia Constituinte, poderia ser realizada a reforma agrária e outras medidas de cunho social. Recebeu a oposição dos bolcheviques e dos anarquistas. O apoio popular a esse governo também era nulo, uma vez que os trabalhadores exigiam o fim da guerra, e os camponeses exigiam a reforma agrária(inclusive já estavam realizando na marra, promovendo violentas invasões de terra e o assassinato de latifundiários).

Em agosto de 1917, o comandante do Exército Russo, general Kornilov, tentou dar um golpe e derrubar o governo provisório, pois acreditava que o país estava um caos e era necessário restabelecer a ordem, acabando com os sovietes, restabelecendo a disciplina militar entre as tropas, e executando Lenin e demais lideres revolucionários de esquerda. Caso o golpe tivesse triunfado, a Rússia teria se tornado uma ditadura militar e muito provavelmente iria caminhar em direção ao fascismo. Felizmente o lider do governo provisório, o socialista revolucionário Alexander Kerensky, decidiu armar os trabalhadores para defender a revolução, incluindo os anarquistas e os bolcheviques. Em setembro, o general Kornilov foi derrotado e preso, com os bolcheviques assumindo a direção da maioria dos sovietes. Assim os bolcheviques conquistaram a hegemonia junto ao proletariado russo, uma vez que participaram ativamente da luta contra Kornilov, defendiam a retirada da Rússia da Primeira Guerra Mundial, e a reforma agrária(ao retornar do exílio, Lenin prometeu ao povo "Pão, Paz e Terra"), além de ser bem melhor organizados do que os anarquistas e outras forças da esquerda contrárias ao governo provisório.

Em 25 de outubro de 1917(segundo o calendário juliano), os bolcheviques realizaram a primeira revolução socialista da história. Na manhã desse dia, revolucionários bolcheviques comandados por Leon Trotsky, ocuparam os principais prédios públicos da capital russa naquela época, a cidade de Petrogrado. A tarde, tropas bolcheviques atacaram o Palácio de Inverno, sede do governo provisório, encontrando pouca resistência. O lider desse governo, Alexander Karensky, conseguiu fugir. O governo provisório foi deposto. A noite, em reunião do Congresso de Sovietes de toda Rússia, foi anunciado o estabelecimento da Rússia Soviética, com a formação do governo socialista liderado pelo Conselho de Comissários do Povo, que era presidido por Lênin. A Duma, ou seja, o "parlamento burguês" foi dissolvido e o poder passou para as mãos do Congresso de Sovietes de Toda Rússia, que era dominado pelos bolcheviques.

Em 3 de Novembro, o governo bolchevique promulgou o Decreto sobre o Controle Operário. Esse documento instituía a autogestão em todas as empresas com 5 ou mais empregados. Isto acelerou a tomada do controle de todas as esferas da economia por parte dos conselhos operários, e provocou um caos generalizado, ao mesmo tempo que acelerou ainda mais a fuga dos proprietários para o exterior. Durante os meses que se seguiram, o governo bolchevique procurou então submeter os vários conselhos operários ao controle estatal, por meio da criação de um Conselho Pan-Russo de Gestão Operária. Os anarquistas se opuseram a isto, mas foram voto vencido.
 
O governo bolchevique tomou uma série de medidas de impacto entre novembro de 1917 e março de 1918, como por exemplo.
 
Pedido de paz imediata: em março de 1918, foi assinado, com a Alemanha, o Tratado de Brest-Litovski, que tirou a Rússia da Primeira Guerra Mundial. Segundo esse tratado, a Rússia abriu mão do controle sobre a Finlândia, Países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), Polônia, Bielorússia e Ucrânia, bem como de alguns distritos turcos e georgianos antes sob seu domínio.


Confisco de propriedades privadas: grandes propriedades foram tomadas dos aristocratas e da Igreja Ortodoxa, para serem distribuídas entre o povo.


Declaração do direito nacional dos povos: o novo governo comprometeu-se a acabar com a dominação exercida pelo governo russo sobre regiões tais como a Finlândia, a Geórgia ou a Armênia.


Estatização da economia: o novo governo passou a intervir diretamente na vida econômica, nacionalizando diversas empresas.


O GOLPE CONTRA A CONSTITUINTE
 
Era consenso entre todos os partidos políticos da esquerda russa, incluindo o Partido Bolchevique, de que seria necessária a criação de uma Assembléia Constituinte. As eleições para essa assembléia ocorreram em 25 de Novembro de 1917, e à exceção dos liberais do Partido Constitucional Democrata, que representava a burguesia e por isso foram "perseguidos" pelo governo bolchevique, todos os outros partidos puderam participar livremente. Mesmo perseguidos, os liberais conseguiram eleger 17 deputados, conquistando 4,8% dos votos. Os Socialistas Revolucionários receberam 41% dos votos, elegendo 380 deputados, enquanto os bolcheviques só conseguiram 25% dos dos votos, elegendo 168 deputados. Os mencheviques e demais partidos restantes receberam muito poucos votos.
 
Em 26 de Dezembro, Lênin publicou suas Teses sobre a Assembléia Constituinte, onde ele defendia os sovietes como uma forma de democracia superior à Assembléia Constituinte.
 
Em 5 de janeiro de 1918, a Assembléia Constituinte se reuniu pela primeira e única vez, pois a noite foi dissolvida pelo governo bolchevique. Essa dissolução se deu sem a aprovação dos sovietes, portanto foi claramente um golpe de estado. E pior, a partir disso os bolcheviques passaram a perseguir os socialistas revolucionários, os mencheviques e os anarquistas, tornando os sovietes uma correia de transmissão do Partido Comunista da Rússia, novo nome do Partido Bolchevique.

Com a eclosão da guerra civil em 1918, o governo soviético proibiu todos os partidos, com excessão do Partido Comunista da Rússia. Mas apesar desse desvio autoritário, ainda havia uma certa liberdade no país, tanto que Trotsky, o lider do Exército Vermelho, era contrário a Nova Política Economica(NEP na sigla em inglês), mas nem por isso sofreu algum tipo de perseguição.

O Exército Vermelho, organizado por Trotsky, era leal a revolução socialista e ao governo soviético liderado por Lênin. O Exército Branco era formado por oficiais e soldados czaristas, que com apoio das potências imperialistas, buscavam derrotar a revolução e reestabelecer a monarquia czarista. A guerra civil foi violenta, com ambos os exércitos promovendo massacres contra a população civil.

A guerra terminou em 1921, com a vitória do Exército Vermelho. Em dezembro de 1922, os comunistas estabeleceram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas(URSS), unindo a Rússia e demais repúblicas soviéticas(as antigas provincias imperiais), sobre direção do governo soviético em Moscou.

Em março de 1921, os bolcheviques corrigiram a equivocada política do "comunismo de guerra", adotada após a vitória da revolução socialista e que tentava estabelecer o socialismo por decreto, adotando a Nova Política Economica(NEP na sigla em inglês), que representava um recuo seguindo a política de "um passo atrás e dois passos adiante", que permitiu a recuperação da economia soviética após o término da guerra civil.

O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, transformando a URSS em uma ditadura totalitaria e burocratica. Josef Stalin era o secretário geral do Partido Comunista da Rússia desde 3 de fevereiro de 1922, e quando Lênin sofreu o terceiro enfarte que o deixou inconsciente, em março de 1923, Stalin formou com Grigory Zinoviev, e com Lev Kamenev, um triunvirato que assumiu a direção do governo soviético.

Após a morte de Lenin, ocorrida em 21 de janeiro de 1924, começou uma batalha feroz na burocracia do partido para ver quem iria sucede-lo. Stalin saiu na frente e após derrotar Trotsky(que foi expulso do partido comunista em 1927, e posteriormente expulso do país em 1929), e afastar outros adversários dos principais postos de direção, assumiu o poder absoluto em 1928.

Stalin acabou com a Nova Política Economica e lançou o primeiro plano quinquenal nesse mesmo ano de 1928, com o objetivo de priorizar a rapida industrialização e "edificar o socialismo", passando para o Estado o controle de toda a atividade econômica. Toda propriedade dos meios de produção, distribuição e troca foi estatizada. Em 1929-1930, Stalin dedica-se à coletivização da agricultura, liquidando camponeses - pequenos, médios ou grandes proprietários de terras. Cerca de 10 milhões são executados ou morrem de fome, e outros são deportados em massa com suas famílias.

E foi justamente o término da NEP, com a adoção da política de industrialização acelerada respaldada na expropriação dos camponeses, promovida por Stalin a partir de 1929, que teve início a completa degeneração do marxismo, descaracterizando por completo o socialismo.

" ... Stalin passa a implementar medidas de coletivização forçada da agricultura, apoiadas numa duríssima repressão contra os camponeses. Sabe-se hoje que essa política voluntarista e duramente coercitiva - que o próprio Stalin chamou de "revolução pelo alto" - levou à morte cerca de 10 milhões de camponeses. Por outro lado, a industrialização acelerada promovida pelos famosos planos qüinqüenais, embora tenha tido importantes resultados quantitativos, produziu fome e gerou opressão sobre os trabalhadores urbanos. Conheceu-se assim, na URSS dos anos 30, um período de intensa superexploração da força de trabalho, tanto camponesa quanto operária. Tudo isso levou à construção de um regime de terror na União Soviética." (Carlos Nelson Coutinho; em "Atualidade de Gramsci") 


Stalin liquidou cerca de dois terços dos quadros do Partido Comunista da URSS, incluindo a "velha guarda" bolchevique, como os revolucionários Nikolai Bukharin, Grigory Zinoviev, e Lev Kamenev(a família de Kamenev também acabou executada, só um de seus filhos sobreviveu aos expurgos do governo Stalin). Leon Trotsky, expulso da URSS em 1929, foi assassinado por um agente stalinista em 1940, no México, onde se encontrava exilado. O filho de Trotsky, Leon Sedov, também foi assassinado por um agente stalinista em Paris.
 
Stalin também liquidou cerca de 5.000 oficiais do Exército acima da patente de major, 13 de 15 generais de cinco estrelas do Exército Vermelho – criado durante a Revolução Russa por Leon Trotsky, seu dissidente mais conhecido – e inúmeros civis, considerando-os todos "inimigos do povo".

"É provável que a dimensão desse violento expurgo se devesse a um acerto de contas de Stalin com Trotsky, visto que foi o seu rival quem forjou o Exército Vermelho durante a guerra civil de 1918-21. O objetivo final seria a stalinização total da organização militar, que até então ficara fora dos expurgos que abateram o partido e a polícia secreta ao longo dos anos trinta." (Robert Conquest - O Grande Terror, pag. 478-9)  

É provável que algumas das vítimas de fato fossem dissidentes de suas reformas econômicas (conhecidas como Planos Qüinqüenais), mas a grande maioria das vítimas não apresentava nenhum indício de oposição ao ditador soviético.

Em 1941, a Alemanha nazista invadiu a URSS. A Heróica resistência do Exército Vermelho foi fundamental para a derrota dos nazistas, que foram expulsos do território soviético em 1944. Em 2 de maio de 1945, os soviéticos tomaram Berlim, e seis dias depois, os alemães se renderam. Cerca de 20 milhões de soviéticos morrearam na Segunda Guerra Mundial.

Stalin morreu em março de 1953, e seu sucessor no cargo de secretário geral do Partido Comunista da URSS, Nikita Kruschev, denunciou no XX Congresso do partido, realizado em fevereiro de 1956, o "culto da personalidade" stalinista e os crimes promovidos por Stalin. Tinha início a desestalinização, que não democratizou a URSS, mas ao menos deu fim ao terror monstruoso e desumano da era stalinista.  
"O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática." (Emiliano José; em "O stalinismo e sua trágica herança") 
Após a desestalinização promovida por Kruschev, a URSS continuou sendo uma ditadura burocratica de partido único, que mesmo realizando grandes façanhas como lançar o primeiro satélite artificial(o Sputnik, em 1957), e colocar o primeiro homem no espaço(Yuri Gagarin, em 1961), acabou não sendo capaz de acompanhar o progresso das nações capitalistas. Nos anos 80, Gorbatchev tentou retomar essa política de desestalinização, com objetivo de democratizar a URSS e acabar com a burocratização do Estado. Mas as reformas que realizou acabaram fracassando, e em dezembro de 1991, a URSS deixou de existir. Hoje a Rússia é um país capitalista, onde ainda não existe uma autêntica democracia.
"A Revolução Russa foi a primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro, uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de atitudes.    
Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo. (...)
    
Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir uma sociedade igualitária."
    
(Marly A. G. Vianna, professora de História da Universidade Federal de São Carlos; em "90 Anos da Revolução Russa") 

DIMMU BORGIR - Dimmu Borgir



"“Deus”, “imortalidade da alma”, “redenção”, “além”, todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei meu tempo, nem mesmo em criança; talvez nunca fosse bastante ingênuo para fazê-lo? Para mim o ateísmo não é nem uma conseqüência, nem mesmo um fato novo: existe comigo por instinto. Sou bastante curioso, suficientemente incrédulo, demasiado insolente para contentarme com uma resposta tão grosseira. Deus é uma resposta rude, uma indelicadeza contra nós, pensadores; antes, dizendo-se a verdade, não é senão um tosco empecilho contra nós mesmos: não deveis cogitar dele!" 

(Friedrich Wilhelm Nietzsche)

Matéria da terceira série



O filósofo Friedrich Nietzsche acreditava que a base racional da moral era uma ilusão e por isso, descartou a noção de homem racional. O mundo para Nietzsche não é ordem e racionalidade, mas desordem e irracionalidade. Seu princípio filosófico não era portanto Deus e razão, mas a vida que atua sem objetivo definido, ao acaso, e por isso se está dissolvendo e transformando-se em um constante devir. A única e verdadeira realidade sem máscaras, para Nietzsche, é a vida humana tomada e corroborada pela vivência do instante.

Nietzsche era ateu e opositor radical da fé e moral cristã. Ele considerava o cristianismo e o budismo como "as duas religiões da decadência", embora afirmasse haver uma grande diferença nessas duas concepções. O budismo para Nietzsche "é cem vezes mais realista que o cristianismo".
"A diferença fundamental entre as duas religiões da decadência: o budismo não promete, mas assegura. O cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada." (Friedrich Wilhelm Nietzsche)
"O cristianismo foi, até o momento, a maior desgraça da humanidade, por ter desprezado o Corpo." (Friedrich Wilhelm Nietzsche)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Matéria da terceira série



O filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche era opositor do socialismo e de todas as doutrinas igualitaristas. Ele condenava "a moral que impele à revolta dos indivíduos inferiores, das classes subalternas e escravas contra a classe superior e aristocrática que, por um lado, pelo influxo dessa mesma moral, sofre de má consciência e cria a ilusão de que mandar é por si mesmo uma forma de obediência". Para ele, os ideais modernos como democracia, socialismo, e emancipação feminina não eram senão expressões da decadência do "tipo homem".

Nietzsche afirma que a vida só se pode conservar e manter-se através de imbricações incessantes entre os seres vivos, através da luta entre vencidos que gostariam de sair vencedores e vencedores que podem a cada instante ser vencidos e por vezes já se consideram como tais. Neste sentido a vida é vontade de poder ou de domínio ou de potência. Vontade essa que não conhece pausas.
"Em qualquer lugar onde encontro uma criatura viva, encontro desejo de poder." (Friedrich Nietzsche)
Segundo Nietzsche, o homem é um filho do "húmus" e é, portanto, corpo e vontade não somente de sobreviver, mas de vencer. Suas verdadeiras "virtudes" são: o orgulho, a alegria, a saúde, o amor sexual, a inimizade, a veneração, os bons hábitos, a vontade inabalável, a disciplina da intelectualidade superior, a vontade de poder. Mas essas virtudes são privilégios de poucos, e é para esses poucos que a vida é feita.


OBS: Húmus é a matéria orgânica depositada no solo, resultante da decomposição de animais e plantas mortas, ou de seus subprodutos.


"O Super-Homem"

Termo originado do alemão Übermensch, o conceito de 'Super-Homem'  foi desenvolvido pelo filósofo Nietzsche, para designar o homem que rompe com as normas idealistas. Se você é um super-homem, não precisa de Deus.
"O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem: uma corda por cima do abismo; perigosa travessia. Perigoso Caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso parar e tremer. O que é de grande valor no homem é o fato de ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento."  (Friedrich Nietzsche)
A figura de Nietzsche foi particularmente promovida na Alemanha nazista, tendo sua irmã, simpatizante do regime hitleriano, fomentado esta associação. Deturpando o pensamento de Nietzsche, os nazistas identificaram o conceito de 'Super-Homem' com a "raça ariana".

OBS: Friedrich Nietzsche era explicitamente contrário ao movimento anti-semita, posteriormente promovido por Adolf Hitler e seus partidários. O racismo não pode ser encontrado no pensamento nietzscheano autêntico.

sábado, 19 de março de 2011

MATÉRIA DA PRIMEIRA SÉRIE

A filosofia nasceu na Grécia, por volta do século V a.C., quando buscando investigar a origem e a ordem do mundo, os pensadores gregos romperam com as explicações mitológicas e buscaram na razão, as respostas para suas indagações. Tales de Mileto foi o primeiro filósofo grego, e afirmava que a água era a matéria prima que originava todos os seres, ou seja, a água era a arché. Anaximandro de Mileto afirmou que a arché era o que chamou de Àpeiron, ou seja, uma substância infinita, ilimitada e indeterminada, uma massa criadora de todos os seres.

“Nem água, nem algum dos elementos, mas alguma substância diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos.” (Anaximandro de Mileto)
Anaxímenes de Mileto concordava que a arché era algo infinito e que não podia ser observada, mas discordava que fosse indeterninada. Segundo ele, a arché era o ar. Pitágoras de Samos afirmava que a natureza possuia uma estrutura matemática, afirmando que os números eram a arché.
“A filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário determo-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida(estado latente, prestes a se transformar), está contido o pensamento: “Tudo é Um”. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e o mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego.”

(Friedrich Nietzsche; em “A filosofia na época trágica dos gregos”)

O filósofo alemão Nietzsche reconhece Tales de Mileto como o primeiro filósofo, justamente por ele ter dito que “a água é a origem de todas as coisas.” Para Nietzsche em “A filosofia na época trágica dos gregos”, é preciso levar tal afirmação a sério, pois ela  enuncia algo sobre a origem das coisas; o faz sem imagem ou fabulação; e contém o pensamento “tudo é um”.


QUESTÃO PARA REFLEXÃO

Muitas vezes, somos surpreendidos pela compreensão “naturalista” que os primeiros pensadores tiveram da realidade. Tales de Mileto, por exemplo, dizia que “tudo é água”. Essa atitude, que pode parecer ingênua, possibilitou, o nascimento da filosofia porque, diferentemente dos mitos, através dela chega-se à

(A)    Compreensão do real sem narrativas ou imagens.  
(B)    Interpretação objetiva da realidade.
(C)    Explicação natural da própria natureza.  
(D)    Consciência de que o um é a essência, o verdadeiro. 
(E)  Definição consistente do modo pelo qual as coisas são.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

Política denomina arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa). O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-Estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana.

A política, como forma de atividade ou de práxis humana, está estreitamente ligada ao poder. O poder político é o poder do homem sobre outro homem, descartados outros exercícios de poder, sobre a natureza ou os animais, por exemplo. Poder que tem sido tradicionalmente definido como "consistente nos meios adequados à obtenção de qualquer vantagem" (Hobbes) ou, como "conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados" (Russell).

São várias as formas de exercícios de poder de um indivíduo sobre outro; o poder político é apenas uma delas.

Para Aristóteles a distinção é baseada no interesse de quem se exerce o poder: o paterno se exerce pelo interesse dos filhos; o despótico, pelo interesse do senhor; o político, pelo interesse de quem governa e de quem é governado. Tratando-se das formas corretas de Governo. Nas demais, o característico é que o poder seja exercido em benefício dos governantes.


O PENSAMENTO LIBERAL

O pensamento liberal se baseia à direita do espectro político. O liberalismo tem suas origens na filosofia política de John Locke e nas doutrinas econômicas de Adam Smith e David Ricardo. Se baseia na defesa da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra as ingerências e atitudes coercitivas do poder estatal. Os principais conceitos do pensamento liberal incluem individualismo metodológico e jurídico, liberdade de pensamento, liberdade religiosa, direitos fundamentais, estado de direito, governo limitado, ordem espontânea, propriedade privada, e livre mercado.

Locke

John Locke é um filósofo inglês do século XVII, defensor do contratualismo, doutrina filosófica fundada por Thomas Hobbes, em oposição a doutrina do direito divino dos reis.

O filósofo Thomas Hobbes (1588-1679) afirma que os homens no estado natural (isto é, sem Estado) vivem de forma egoísta, em que uns se jogam contra os outros pelo desejo de poder, da riqueza, de propriedades. Daí a frase: “homo homini lupus”, cada homem é lobo para o seu próximo. Como desta forma eles se destroem uns aos outros, eles necessariamente precisam de um contrato, um contrato para constituir um Estado, um Estado que refreie os lobos, que impeça o desencadear-se dos egoísmos e a destruição mútua.

John Locke (1632-1704) observa que no estado natural o homem está plenamente livre, mas sente necessidade de colocar limites à sua própria liberdade, a fim de garantir a sua propriedade. Acha que a falta de um Estado não garante a propriedade. Insistia em dizer que o Estado é soberano, mas sua autoridade vem somente do contrato que o faz nascer. O seu conceito de Estado é distinto do de Hobbes. Para Hobbes, o contrato gera um Estado absoluto; para Locke, este pode ser desfeito a qualquer momento.

John Locke é considerado o pai do liberalismo. No "Primeiro tratado sobre o governo civil", critica a tradição que afirmava o direito divino dos reis, declarando que a vida política é uma invenção humana, completamente independente das questões divinas. No "Segundo tratado sobre o governo cívil", expõe sua teoria do Estado liberal e a propriedade privada.

A filosofia política de Locke fundamenta-se na noção de governo consentido dos governados diante da autoridade constituída e o respeito ao direito natural do ser humano, de vida, liberdade e propriedade. Influencia, portanto, as modernas revoluções liberais: Revolução Gloriosa Inglesa, Revolução Americana e na fase inicial da Revolução Francesa.

John Locke é considerado como "o último grande filósofo que procura justificar a escravidão absoluta e perpétua"[a*]. Ao mesmo tempo que dizia que todos os homens são iguais, Locke defendia a escravidão (sem distinguir que fosse a relativa aos negros). Locke somente sustenta a escravidão pelo contrato de servidão em proveito do vencido na guerra que poderia ser morto, mas assume o ônus de servir em troca de viver.

ALGUMAS VERDADES SOBRE O PENSAMENTO LIBERAL

O filósofo inglês John Locke pode ser considerado como o marco da democracia liberal. Entretanto o conceito de democracia defendido por Locke e pelos primeiros pensadores liberais, excluia grande parte da população, uma vez que defendiam o voto censitário, ou seja, apenas quem tinha propriedade e pagava impostos podia votar. Estavam excluidos os trabalhadores, os desempregados e as mulheres.

"O liberalismo surge como uma clara posição de limitação do poder do Estado. Em seu início, tinha como inimigo o Estado absolutista. Locke diz que nascemos com direitos naturais, à vida, à liberdade e à propriedade, sobretudo à propriedade, e esses direitos são inalienáveis, o Estado não pode interferir neles. (...)
 
Os regimes liberais originários fundavam-se nessa idéia da liberdade do indivíduo em relação ao Estado e muito pouco na idéia da participação que era restritíssima. Com base no princípio do voto censitário, só votava quem pagava imposto e tinha propriedade. Excluía-se do eleitorado a maioria esmagadora. Kant, um brilhante pensador liberal, dizia que não podiam votar as mulheres, porque não tinham independência de juízo, dependiam do marido ou do pai. E nem os trabalhadores assalariados, porque dependiam do patrão."
 
(Carlos Nelson Coutinho; em Teoria e Debate nº 51)
 

Os trabalhadores e as mulheres precisaram se organizar e lutar, principalmente sobre a inflûencia do pensamento socialista, para conquistar seus direitos. Legalização dos sindicatos e do direito de greve, voto universal, legalização dos partidos operários e populares, jornada de trabalho de oito horas diárias, férias remuneradas, condições dignas de trabalho, etc, foram conquistas da luta do movimento operário.

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de Março, tem origem nas manifestações femininas por melhores condições de trabalho e direito de voto, no início do século XX, na Europa e nos Estados Unidos. A data foi adotada pelas Nações Unidas, em 1975, para lembrar tanto as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres como as discriminações e as violências a que muitas mulheres ainda estão sujeitas em todo o mundo.

O primeiro Dia Internacional da Mulher foi celebrado em 28 de Fevereiro de 1909, nos Estados Unidos da América, por iniciativa do Partido Socialista da América. Em 1910, ocorreu a primeira conferência internacional de mulheres, em Copenhagen, dirigida pela Internacional Socialista, quando foi aprovada proposta da socialista alemã Clara Zetkin, de instituição de um dia internacional da Mulher, embora nenhuma data tivesse sido especificada. No ano seguinte, o Dia Internacional da Mulher foi celebrado a 19 de Março, por mais de um milhão de pessoas, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça.

"A partir de um certo momento, os regimes liberais, pela pressão das massas, começam a incorporar elementos de democracia. O sufrágio universal é um princípio democrático, não liberal. A liberdade de organização, por exemplo, foi proibida nos regimes liberais. A Revolução Francesa proibiu os sindicatos, que só se tornaram legais na França depois da Comuna de Paris. Partidos políticos são também conquistas da classe trabalhadora, que começou a organizar partidos de massa, ligados a movimentos sociais. Podemos hoje falar de uma institucionalidade liberal-democrática, no sentido de que os velhos princípios do liberalismo foram enriquecidos com esses institutos democráticos."
 
(Carlos Nelson Coutinho; em Teoria e Debate nº 51)




[a*] David B. Davis, The Problem of Slavery in the Age of Revolution, 1770-1823 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1975), p. 45, apud Domenico Losurdo, Contra-História do Liberalismo (Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2006 [editado em italiano em 2005]), p. 15.

MATÉRIA DA SEGUNDA SÉRIE

O que é a epistemologia? A resposta é: o ramo da filosofia que se ocupa do conhecimento humano, pelo que também é designada de "teoria do conhecimento". Mas por que temos necessidade de uma teoria do conhecimento? O que há de especial nas investigações filosóficas do conhecimento?

Para responder essas perguntas, devemos apresentar os cinco problemas que a epistemologia busca resolver:

  1. O problema analítico: O que é o conhecimento? (Ou se preferirmos, o que entendemos ou devemos entender por "conhecimento"? Por exemplo, como se distingue (ou se deve distinguir) o conhecimento da simples crença ou opinião? O que aqui se pretende, é uma explicação precisa ou "análise" do "conceito" de conhecimento.
  2. O problema da demarcação: Este divide-se em dois problemas: a) O problema "externo" pergunta: sabendo-se de algum modo o que é o conhecimento, poderemos determinar que coisas podemos razoavelmente esperar conhecer? Ou poderemos determinar o âmbito e os limites do conhecimento humano? Será que há assuntos acerca dos quais podemos ter conhecimento, enquanto há outros acerca dos quais não podemos ter mais do que opinião (ou fé)? b) O problema "interno" pergunta se há fronteiras significativas no interior do domínio do conhecimento. Por exemplo, muitos filósofos têm defendido que há uma distinção fundamental entre o conhecimento a posteriori ou "empírico" e o conhecimento a priori ou "não empírico". O conhecimento empírico depende (de uma forma ou de outra) da experiência ou observação, ao passo que o conhecimento a priori é independente da experiência, fornecendo a matemática o exemplo mais claro. Contudo, outros filósofos negam que se possa fazer tal distinção.
  3. O problema do método: Este relaciona-se com o modo como obtemos ou procuramos conhecimento.
  4. O problema do ceticismo: Será de fato possível obter algum conhecimento? Este problema é difícil porque há argumentos poderosos, alguns bastante antigos, a favor da resposta negativa. Por exemplo, embora o conhecimento não possa assentar em pressupostos brutos, todos os argumentos têm de acabar por chegar ao fim. Parece que, em última análise, as opiniões das pessoas assentam em indícios que elas não podem justificar e não podemos considerar conhecimento genuíno. O problema que aqui se coloca, então, é o de conhecer os argumentos do ceticismo filosófico, a tese que defende a impossibilidade do conhecimento. Uma vez que há uma ligação forte entre conhecimento e justificação, o problema do ceticismo está intimamente ligado ao problema da justificação. 
  5. O problema do valor: Os problemas esboçados são significativos somente se faz sentido possuir conhecimento. Supondo que sim, para que o queremos? Queremo-lo de qualquer forma, ou por causa de determinados objetivos e em determinadas situações? O conhecimento é o único objetivo da investigação, ou há outros com igual (ou maior) importância?
        
Se o conhecimento não tivesse importância, não perderíamos tempo a imaginar como o definir, como o obter, nem a traçar linhas à sua volta. Nem nos interessaria refutar o cético. A preocupação com o conhecimento (ou com realidades afins) está de tal modo enraizada na nossa tradição ocidental que não é opcional. Esta tradição, que nos seus aspectos filosóficos e científicos, tem as suas origens na Grécia clássica, é globalmente e no seu sentido mais lato uma tradição racionalista e crítica. A ciência e a filosofia começam quando as ideias acerca da origem e natureza do universo se separam do mito e da religião e são tratadas como teorias que se podem discutir: isto é, comparadas com (e porventura superadas por) teorias concorrentes. Como observou o filósofo Karl Popper, esta abordagem globalmente racionalista para compreender o mundo pode ser considerada como um tipo de tradição de "segunda ordem": o que conta não são crenças particulares — encaradas como sagradas, ancestrais, e desse modo mais ou menos inquestionáveis — mas a prática do exame crítico das ideias correntes para que se possa reter apenas o que fica depois da inspecção. Ter herdado esta tradição explica a nossa tendência para contrastar conhecimento com preconceito ou com a (simples) tradição.

Fonte: Michael Williams, professor de epistemologia da Universidade de Johns Hopkins.

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917

"O czar era considerado dono de toda a Rússia, e todos os seus súditos deviam servi-lo. Não bastasse isso, havia um argumento religioso para justificar a autoridade do czar, e o poder deste era considerado sagrado. Como não existia separação entre Igreja e Estado, os sacerdotes da Igreja Ortodoxa (a religião oficial) eram pagos com o dinheiro dos impostos. Ou seja, dinheiro que em grande parte vinha do trabalho dos camponeses e operários.
     
Como se vê, o czar tinha mais em comum com os antigos reis absolutistas (como Luís XIV) do que com os soberanos das monarquias parlamentares (como a que existe hoje na Inglaterra). Apesar disso, ele era muito popular. O povo, mesmo quando se rebelava, punha a culpa dos problemas do país nos nobres, nos ministros, nos funcionários públicos, nos latifundiários ou (com muita freqüência, sendo nisso apoiados pela propaganda oficial) até nos judeus. A figura do czar era sempre poupada, pois se achava que ele era bondoso e que seus assessores não o deixavam saber da verdadeira situação."
     
(Tulio Vilela; em "Domingo sangrento, bolcheviques e mencheviques")



No começo do século XX, a Rússia era um país atrasado, onde o povo vivia na extrema pobreza e sem participação alguma nas decisões políticas. O czar ou imperador era o senhor absoluto do poder, e a economia baseada na agrícultura fazia o país viver em uma realidade semi-feudal. Em janeiro de 1905, uma manifestação pacífica de trabalhadores, que exigiam melhores salários e redução da jornada de trabalho, foi reprimida com extrema violência pela guarda czarista, no que ficou conhecido como "Domingo Sangrento".

E foi apenas após a revolução popular, também ocorrida em 1905, que foi permitido ao povo russo eleger representantes para a Duma(parlamento), mas assim mesmo o poder continuou nas mãos do czar, que podia dissolver a Duma quando bem entendesse.

A Primeira Guerra Mundial acabou complicando ainda mais a situação, com o atrasado Exército Imperial Russo sofrendo inúmeras derrotas para os alemães e seus aliados austro-húngaros. Então em fevereiro de 1917(segundo o calendário juliano, pois segundo o calendário gregoriano foi em março), uma revolta popular eclodiu em Petrogrado, que era a capital do país, recebendo a adesão dos soldados e cabos do exército, que junto com os trabalhadores formaram o Soviet de Soldados e Trabalhadores de Petrogrado, assumindo o controle da cidade, o que acabou obrigando o Czar Nicolau II a abdicar o trono. Outros sovietes foram formados nas cidades russas, e a Duma(parlamento) formou um governo provisório, que garantiu a conquista da democracia, libertando os presos políticos e permitindo o retorno dos exilados, ao mesmo tempo que não promoveu nenhuma política social que combatesse a miséria da maior parte da população. E manteve a Rússia na guerra.

Então em 25 de outubro de 1917(segundo o calendário juliano, pois segundo o calendário gregoriano foi em 7 de novembro), ocorreu na Rússia, a primeira revolução socialista da história. Após retornar do exílio, o revolucionário marxista Vladimir Lênin ordenou a seus camaradas do Partido Bolchevique, que fizessem oposição ao governo provisório e preparassem a revolução, com a palavra de ordem "TODO PODER AOS SOVIETES". Após uma tentativa fracassada de golpe por parte de setores de extrema-direita do exército, os bolcheviques assumiram a hegemonia nos sovietes(conselhos de soldados e operários), e organizaram a revolução socialista. Em 25 de outubro de 1917, os revolucionários bolcheviques assumiram o controle da capital, Petrogrado, e enfrentando uma fraca resistência, ocuparam o Palácio de Inverno, que era a sede do governo provisório. Os revolucionários bolcheviques derrubaram o governo provisório, que havia sido estabelecido oito meses antes, e proclamaram a primeira república socialista da história.

O parlamento burguês(Duma) foi dissolvido, e o poder passou para as mãos dos sovietes(conselhos operários), que eram controlados pelos bolcheviques. Foi então formado o Conselho de Comissários do Povo, presidido por Vladimir Lênin, que assumiu o governo do país e promoveu a transformação radical da sociedade russa, desapropriando a burguesia. O governo bolchevique estatizou as fábricas e bancos, promoveu uma reforma agrária radical e tirou a Rússia da Primeira Guerra Mundial.

Entre 1918 e 1921, ocorreu uma sangrenta guerra civil entre as forças revolucionárias(Exército Vermelho), leais ao governo bolchevique, e as forças contra-revolucionárias que pretendiam restabelecer a monarquia czarista(Exército Branco), e que tinham o apoio das grandes potências capitalistas. O Exército Vermelho venceu a guerra e os bolcheviques construiram em dezembro de 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas(URSS).

A desigualdade social chegou ao fim, inclusive homens e mulheres passaram a ter os mesmos direitos e deveres, acabando com a discriminação sexual. A URSS passou a apoiar o movimento revolucionário na China, que unia comunistas e nacionalistas do Kuomitang, na luta contra os chamados "senhores da guerra", que mantinham a nação chinesa no mais absoluto atraso e entregue ao banditismo.

Entretanto o socialismo soviético acabou sofrendo uma grave degeneração, após Josef Stalin assumir o poder absoluto no final dos anos 20, estabelecendo uma ditadura totalitaria responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Esse regime arbitrário e burocrático, longe de acabar com a exploração do homem pelo homem, resultou no surgimento de uma casta privilegiada de burocratas que agia como uma nova classe dominante, oprimindo o proletariado e o campesinato. Isso acabou resultando no colapso do regime socialista no final dos anos 80.

"Um olhar retrospectivo sobre o século passado não pode se omitir sobre o trágico legado do stalinismo. A esquerda em especial não tem o direito de ignorá-lo. Tal herança pesa como um fardo sobre ela, mesmo já havendo uma alentada produção teórica de condenação dos anos em que Stalin esteve à frente da URSS, principalmente após o final dos anos 20 e até sua morte, em 1953. (...) 
  
Para a esquerda, é necessário resistir à tentação de refugiar-se num tempo de ouro, na nostalgia de um tempo feliz, que não existiu, ao contrário. O stalinismo foi um tempo de terror, de esmagamento dos adversários pela violência, marcado pela ausência da política, ao menos se esta for entendida como o reino da liberdade, e não da força bruta. 
     
O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática."  
     
(Emiliano José; O stalinismo e sua trágica herança)


O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, transformando a União Soviética ou URSS, em uma ditadura totalitaria e burocratica responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Também foi responsável pela morte de milhares de pessoas, nos países do Leste Europeu onde o Exército Vermelho estabeleceu regimes socialistas após a Segunda Guerra Mundial. A filosofia marxista em momento algum defende regimes totalitarios, ditadura de partido único e muito menos culto a personalidade do lider, que eram caracteristicas do regime stalinista.

Josef Stalin era um revolucionário bolchevique e tornou-se secretário-geral do Partido Comunista da Rússia em 3 de fevereiro de 1922. Quando o lider do partido e do Estado soviético, o revolucionário Vladimir Lenin, sofreu o terceiro enfarte que o deixou inconsciente, em março de 1923, foi formado um triunvirato composto por Stalin, Grigory Zinoviev, e Lev Kamenev, que assumiu a direção do governo soviético. Após a morte de Lenin, ocorrida em 21 de janeiro de 1924, começou uma batalha feroz na burocracia do partido para ver quem iria sucede-lo. Stalin saiu na frente por comandar a burocracia partidária, e após derrotar Trotsky e afastar outros adversários dos principais postos de direção, assumiu o poder absoluto em 1928.

Leon Trotsky foi o revolucionário bolchevique que organizou o Exército Vermelho, e era considerado o principal adversário de Stalin na sucessão da liderança do Estado soviético. Opositor do stalinismo, Trotsky acabou sendo expulso da URSS, em 1929, e no exílio organizou um movimento comunista dissidente, a IV Internacional. Acabou sendo assassinado por um agente stalinista em 1940, no México, onde estava exilado.

O stalinismo tornou-se uma antítese do marxismo, pois ao invés de acabar com a exploração do homem pelo homem, originou uma casta privilegiada de burocratas que agia como uma nova classe dominante, além de estabelecer um regime ditadorial responsável por alguns dos piores crimes contra a humanidade no século XX. Isso acabou resultando no fracasso dessa primeira experiência socialista.
 
Mas apesar de fracassada, a experiência socialista na URSS e no Leste Europeu teve a importância histórica de representar uma alternativa de sociedade pós-capitalista, onde ocorreu a desapropriação da burguesia, buscando acabar com a exploração do homem pelo homem. Mesmo com todos os crimes promovidos pelo stalinismo, essa primeira experiência socialista conseguiu transformar a Rússia semi-feudal dos czares em uma superpotência nuclear, que ameaçou a hegemonia mundial dos EUA, inclusive dando inicio ao programa espacial da humanidade, lançando o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, e colocando o primeiro homem no espaço, o major Yuri Gagarin, em abril de 1961.  

“A Revolução Russa foi a primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro, uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de atitudes.

Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo. (…)

Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir uma sociedade igualitária.”

(Marly A. G. Vianna, professora de História da Universidade Federal de São Carlos; em “90 Anos da Revolução Russa”)


A esquerda socialista precisa ser anti-stalinista, precisa deixar claro que ditaduras totalitarias de partido único, culto a personalidade e outras barbaridades que caracterizaram o socialismo oriundo da tradição stalinista, não tem nenhuma relação com o marxismo autêntico. Aquele socialismo que existia na antiga URSS, não é em hipótese alguma o socialismo que os marxistas autênticos querem construir. Inclusive em dezembro de 1922, ou seja, três meses antes de sofrer o terceiro derrame que o deixou inconsciente até sua morte, ocorrida em janeiro de 1924, o revolucionário Vladimir Lenin escreveu uma carta onde criticava Stalin, solicitando a sua demissão do cargo de secretário geral do Partido Comunista da Rússia(bolchevique), recomendando alguém que fosse mais leal e tolerante para o cargo. Lênin pretendia apresentar essa carta no congresso do partido, mas não pode faze-lo por causa do derrame.  

"Me refiro à estabilidade como garantia contra a ruptura em um futuro próximo, e tenho a proposta de colocar aqui várias considerações de índole puramente pessoal. Creio que o fundamental no problema da estabilidade, desde este ponto de vista, são tais membros do CC como Stálin e Trotsky. As relações entre eles, a meu modo de ver, encerram mais da metade do perigo desta divisão que se poderia evitar, e a cujo objetivo deveria servir entre outras coisas, segundo meu critério, a ampliação do CC a 50 ou até 100 membros.
  
O camarada Stálin, tendo chegado ao Secretariado Geral, tem concentrado em suas mãos um poder enorme, e não estou seguro que sempre irá utilizá-lo com suficiente prudência. Por outro lado, o camarada Trotsky, segundo demonstra sua luta contra o CC em razão do problema do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, não se distingue apenas por sua grande capacidade. Pessoalmente, embora seja o homem mais capaz do atual CC, está demasiado ensoberbecido e atraído pelo aspecto puramente administrativo dos assuntos(1). Estas características de dois destacados dirigentes do atual CC podem levar sem querer-lo à ruptura, e se nosso Partido não toma medidas para impedir-lo, a divisão pode vir sem que se espere.
  
Não seguirei caracterizando aos demais membros do CC por suas características pessoais. Recordarei apenas que o episódio de Zinoviev e Kamenev em Outubro(2) não é, naturalmente, uma casualidade, e que se disto não se pode culpar pessoalmente, tão pouco a Trotsky pelo seu não bolchevismo.(3)(...)
  
Stálin é brusco demais, e este defeito, plenamente tolerável em nosso meio e entre nós, os comunistas, se coloca intolerável no cargo de Secretário Geral. Por isso proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Stálin a outro posto e nomear a este cargo outro homem que se diferencie do camarada Stálin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas, menos caprichoso, etc. Esta circunstância pode parecer fútil tolice. Porém eu creio que, desde o ponto de vista de prevenir a divisão e desde o ponto de vista do que escrevi anteriormente sobre as relações entre Stálin e Trotsky, não é uma tolice, ou se trata de uma tolice que pode adquirir importância decisiva."    
  
(Trecho da Carta de Lênin ao XIII Congresso do Partido Comunista da Rússia(bolchevique))
 
  
(1) Lenin, no seu Testamento Político, fala de Trotsky como "o homem mais capaz do presente Comitê Central", mas deplora suas tendências autoritárias (nas palavras de Lenin, "sua tendência a abordar as questões apenas pelo lado administrativo").
  
(2) Zinoviev e Kamenev colocaram-se contra a tentativa de insurreição que resultaria na Revolução de Outubro de 1917 nas instâncias do Partido Bolchevique.
  
(3) Até 1917 Trotsky não ingressara nas fileiras do Partido Bolchevique, e conservava profundas divergências com os mesmos.

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

MARXISMO

"A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes".
(Karl Marx e Friedrich Engels; Manifesto do Partido Comunista)


Segundo a filosofia marxista, a luta de classes é o motor que move a história. Essa luta é travada pelas classes dominadas contra as classes dominantes e resulta em uma revolução social, promovendo a mudança dos meios de produção e assim gerando uma nova sociedade. Por exemplo: no passado havia o feudalismo, onde a produção se apoiava na exploração do trabalho produtivo dos servos da gleba. A luta de classes entre o povo(servos, artesãos, burgueses) e as classes dominantes(nobreza e clero) resultou nas revoluções liberais dos séculos XVII e XVIII: Revolução Gloriosa[1688], na Inglaterra; Revolução Americana[1776]; e Revolução Francesa[1789]. Essas revoluções originaram o capitalismo, onde a produção é orientada para o máximo lucro através da exploração da mais-valia do trabalho proletário. 

A luta de classes entre o proletariado(operários e demais trabalhadores urbanos) e seus aliados(camponeses, intelectuais assalariados, desempregados, etc) contra a burguesia(empresários, banqueiros, latifundiários), resultará em uma revolução socialista que levará o proletariado ao poder, substituindo o modo de produção capitalista pelo socialista, onde o proletariado se torna a classe dominante e a propriedade dos meios de produção e troca é socializada. Será preciso, então, sufocar a reação dos expropriados, motivo pelo qual o proletariado deve estabelecer a sua "ditadura" sobre a burguesia.

Segundo o pensamento marxista, o Estado nem sempre existiu. Teve sua origem quando as sociedades humanas se dividiram em classes sociais antagônicas, com o objetivo de suavizar a luta entre as classes, mas sempre tomando partido em favor das classes dominantes. Na atual sociedade capitalista, onde a burguesia é a classe dominante, o papel do Estado é proteger a propriedade privada dos meios de produção, distribuição e troca. Com a revolução socialista, o proletariado toma o poder e estabelece sua "ditadura" sobre a burguesia, promovendo a socialização de toda a propriedade dos meios de produção, distribuição e troca. Mas esse seria um regime transitório, pois eliminada a propriedade privada dos meios de produção e a divisão do trabalho, acabaria por se extinguir as classes sociais, ocasionando o surgimento da sociedade comunista, onde todos seriam iguais economicamente e o Estado se tornaria desnecessário, deixando de existir. 

Em 25 de outubro de 1917(ou 7 de novembro, segundo o calendário gregoriano), ocorreu na Rússia a primeira revolução socialista da história. O revolucionário marxista Vladimir Lênin havia defendido a possibilidade de revoluções socialistas ocorrerem em países capitalistas atrasados, como era o caso da Rússia semi-feudal dos czares, e desenvolveu o conceito do partido revolucionário como vanguarda do proletariado, fundando o bolchevismo. Então em 25 de outubro de 1917, os revolucionários bolcheviques derrubaram o governo provisório(que havia sido estabelecido oito meses antes, quando o Czar Nicolau II abdicou o trono devido a uma revolta popular). O parlamento burguês foi dissolvido, e o poder passou para as mãos dos sovietes(conselhos operários), que eram controlados pelos bolcheviques. Foi então formado o Conselho de Comissários do Povo, presidido por Lênin, que assumiu o governo do país e promoveu a transformação radical da sociedade russa, desapropriando a burguesia, promovendo uma reforma agrária radical e instaurando o governo soviético.
  
O socialismo soviético acabou sofrendo uma grave degeneração, após Josef Stalin assumir o poder absoluto no final dos anos 20, estabelecendo uma ditadura totalitaria responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Esse regime arbitrário e burocrático, longe de acabar com a exploração do homem pelo homem, resultou no surgimento de uma casta privilegiada que agia como uma nova classe dominante, oprimindo o proletariado e o campesinato. Isso acabou resultando no colapso do regime socialista no final dos anos 80.
 
Mas apesar de fracassada, a experiência socialista na URSS teve a importância histórica de representar uma alternativa de sociedade pós-capitalista, onde ocorreu a desapropriação da burguesia, buscando acabar com a exploração do homem pelo homem. Mesmo com todos os crimes promovidos pelo stalinismo, essa primeira experiência socialista conseguiu transformar a Rússia semi-feudal dos czares em uma superpotência nuclear, que ameaçou a hegemonia mundial dos EUA, inclusive dando inicio ao programa espacial da humanidade, lançando o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, e colocando o primeiro homem no espaço, o major Yuri Gagarin, em abril de 1961.  


“A Revolução Russa foi a primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro, uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de atitudes.
 
Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo. (…)
 
Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir uma sociedade igualitária.”
 
(Marly A. G. Vianna, professora de História da Universidade Federal de São Carlos; em “90 Anos da Revolução Russa”)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

DIALÉTICA

Em suas origens, dialética era a arte do diálogo, da contraposição de idéias que leva a outras idéias. É a partir de Heráclito, que viveu por volta de 500 a.C., que a dialética se transforma no estudo do devir – o vir a ser, as mutações.

Segundo Heráclito, o fluxo permanente define a harmonia universal. Tudo se move, nada se fixa na imutabilidade. Ele costumava repetir uma frase que se tornou célebre – ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários. Deste conflito entre os opostos é que nasce a concórdia, a harmonia. Isto permite que o Ser seja uno ao mesmo tempo em que se encontra mergulhado nas constantes mutações do contexto que o envolve. Ele ainda afirma que os contrários ocupam perfeitamente o mesmo espaço, simultaneamente, como o início e o final de uma esfera. 


Na modernidade

No início do século XIX Georg Wilhelm Hegel (1770-1831), desejando solucionar o problema das transformações às quais a realidade está submetida, apresenta a dialética como um movimento racional que permite transpor uma contradição. Uma tese inicial contradiz-se e é ultrapassada por sua antítese. Essa antítese, que conserva elementos da tese, é superada pela síntese, que combina elementos das duas primeiras, num progressivo enriquecimento. A dialética hegeliana não é um método, mas um movimento conjunto do pensamento e da realidade.

Segundo Hegel, a história da humanidade cumpre uma trajetória dialética marcada por três momentos: tese, antítese e síntese. O primeiro vai das civilizações orientais antigas até o surgimento da filosofia na Grécia. Hegel o classifica como objetivo, porque considera que o espírito está imerso na natureza. O segundo é influenciado pelos gregos, mas começa efetivamente com o cristianismo e termina com Descartes. É um momento subjetivo, no qual o espírito toma consciência de sua existência e surge o desejo de liberdade. O terceiro, ou a síntese absoluta, acontece a partir da Revolução Francesa, quando o espírito consciente controla a natureza e o desejo de liberdade concretiza-se na concepção do Estado moderno.

Karl Marx e Friedrich Engels (1820-1895) reformam o conceito hegeliano de dialética: utilizam a mesma forma, mas introduzem um novo conteúdo. Chamam essa nova dialética de materialista, porque o movimento histórico, para eles, é derivado das condições materiais da vida.

A dialética materialista analisa a história do ponto de vista dos processos econômicos e sociais e a divide em quatro momentos: Antiguidade, feudalismo, capitalismo e socialismo. Cada um dos três primeiros é superado por uma contradição interna, chamada "germe da destruição". A contradição da Antiguidade é a escravidão; do feudalismo, os servos; e do capitalismo, o proletariado. O socialismo iria originar a síntese final, em que a história cumpre seu desenvolvimento dialético: A sociedade comunista.

MATÉRIA DA SEGUNDA SÉRIE

Epistemologia

A epistemologia, também chamada teoria do conhecimento, é o ramo da filosofia interessado na investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões principais que ela tenta responder estão as seguintes. O que é o conhecimento? Como nós o alcançamos?

Um passo óbvio na direção de responder a primeira questão é tentar uma definição. A definição padrão, preliminarmente, é a de que o conhecimento é crença verdadeira justificada. Esta definição parece plausível porque, ao menos, ele dá a impressão de que para conhecer algo alguém deve acreditar nele, que a crença deve ser verdadeira, e que a razão de alguém para acreditar deve ser satisfatória à luz de algum critério - pois alguém não poderia dizer conhecer algo se sua razão para acreditar fosse arbitrária ou aleatória. Assim, cada uma das três partes da definição parece expressar uma condição necessária para o conhecimento, e a reivindicação é a de que, tomadas em conjunto, elas são suficientes.
 
Definição de Conhecimento
 
Há diferentes modos pelos quais alguém poderia ser indicado como tendo conhecimento. Alguém pode conhecer pessoas ou lugares, no sentido de estar familiarizado com eles. Isso é o que se quer dizer quando alguém fala "Meu pai conhecia Lloyd George". Aguém pode conhecer como fazer algo, no sentido de possuir uma habilidade ou destreza. Isso é o que se quer dizer quando alguém fala "Eu sei jogar xadrez". E alguém pode saber que é algo é o caso quando alguém fala "Eu sei que o Everest é montanha mais alta". Este último modo é às vezes chamado de "conhecimento proposicional", e é a espécie que os epistemólogos mais desejam entender.
 
A definição de conhecimento já mencionada - conhecimento é crença verdadeira justificada - é entendida como uma análise do conhecimento no sentido proposicional. A definição é obtida perguntando que condições tem de ser satisfeitas quando queremos descrever alguém como conhecendo algo. Ao dar a definição enunciamos o que esperamos que sejam as condições necessárias e suficientes para a verdade da afirmação "S sabe que p", onde "S" é o sujeito epistêmico - o suposto conhecedor - e "p" a proposição.
 
A definição sustenta um ar de plausibilidade, ao menos quanto aplicada ao conhecimento empírico, porque parece encontrar o mínimo que pode ser esperado como necessário a partir de um conceito conseqüente. Parece correto esperar que se S sabe que p, então p deve, ao menos, ser verdadeira. Parece certo esperar que S deve não meramente supor ou esperar que p é o caso, mas que deve ter um atitude epistêmica positiva em relação a p: S deve acreditar que ela é verdadeira. E se S acredita em alguma proposição verdadeira enquanto ela não tem nenhum fundamento, ou fundamentos incorretos, ou meramente fundamentos arbitrários ou imaginários, não diríamos que S conhece p; querendo dizer que S deve ter bases para acreditar que p em algum sentido propriamente justificado de assim proceder.

Fonte: A Epistemologia; de A. C. Grayling