“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.” (Marilena Chaui)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

MATÉRIA DA TERCEIRA SÉRIE

MARXISMO

"A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes".
(Karl Marx e Friedrich Engels; Manifesto do Partido Comunista)


Segundo a filosofia marxista, a luta de classes é o motor que move a história. Essa luta é travada pelas classes dominadas contra as classes dominantes e resulta em uma revolução social, promovendo a mudança dos meios de produção e assim gerando uma nova sociedade. Por exemplo: no passado havia o feudalismo, onde a produção se apoiava na exploração do trabalho produtivo dos servos da gleba. A luta de classes entre o povo(servos, artesãos, burgueses) e as classes dominantes(nobreza e clero) resultou nas revoluções liberais dos séculos XVII e XVIII: Revolução Gloriosa[1688], na Inglaterra; Revolução Americana[1776]; e Revolução Francesa[1789]. Essas revoluções originaram o capitalismo, onde a produção é orientada para o máximo lucro através da exploração da mais-valia do trabalho proletário. 

A luta de classes entre o proletariado(operários e demais trabalhadores urbanos) e seus aliados(camponeses, intelectuais assalariados, desempregados, etc) contra a burguesia(empresários, banqueiros, latifundiários), resultará em uma revolução socialista que levará o proletariado ao poder, substituindo o modo de produção capitalista pelo socialista, onde o proletariado se torna a classe dominante e a propriedade dos meios de produção e troca é socializada. Será preciso, então, sufocar a reação dos expropriados, motivo pelo qual o proletariado deve estabelecer a sua "ditadura" sobre a burguesia.

Segundo o pensamento marxista, o Estado nem sempre existiu. Teve sua origem quando as sociedades humanas se dividiram em classes sociais antagônicas, com o objetivo de suavizar a luta entre as classes, mas sempre tomando partido em favor das classes dominantes. Na atual sociedade capitalista, onde a burguesia é a classe dominante, o papel do Estado é proteger a propriedade privada dos meios de produção, distribuição e troca. Com a revolução socialista, o proletariado toma o poder e estabelece sua "ditadura" sobre a burguesia, promovendo a socialização de toda a propriedade dos meios de produção, distribuição e troca. Mas esse seria um regime transitório, pois eliminada a propriedade privada dos meios de produção e a divisão do trabalho, acabaria por se extinguir as classes sociais, ocasionando o surgimento da sociedade comunista, onde todos seriam iguais economicamente e o Estado se tornaria desnecessário, deixando de existir. 

Em 25 de outubro de 1917(ou 7 de novembro, segundo o calendário gregoriano), ocorreu na Rússia a primeira revolução socialista da história. O revolucionário marxista Vladimir Lênin havia defendido a possibilidade de revoluções socialistas ocorrerem em países capitalistas atrasados, como era o caso da Rússia semi-feudal dos czares, e desenvolveu o conceito do partido revolucionário como vanguarda do proletariado, fundando o bolchevismo. Então em 25 de outubro de 1917, os revolucionários bolcheviques derrubaram o governo provisório(que havia sido estabelecido oito meses antes, quando o Czar Nicolau II abdicou o trono devido a uma revolta popular). O parlamento burguês foi dissolvido, e o poder passou para as mãos dos sovietes(conselhos operários), que eram controlados pelos bolcheviques. Foi então formado o Conselho de Comissários do Povo, presidido por Lênin, que assumiu o governo do país e promoveu a transformação radical da sociedade russa, desapropriando a burguesia, promovendo uma reforma agrária radical e instaurando o governo soviético.
  
O socialismo soviético acabou sofrendo uma grave degeneração, após Josef Stalin assumir o poder absoluto no final dos anos 20, estabelecendo uma ditadura totalitaria responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Esse regime arbitrário e burocrático, longe de acabar com a exploração do homem pelo homem, resultou no surgimento de uma casta privilegiada que agia como uma nova classe dominante, oprimindo o proletariado e o campesinato. Isso acabou resultando no colapso do regime socialista no final dos anos 80.
 
Mas apesar de fracassada, a experiência socialista na URSS teve a importância histórica de representar uma alternativa de sociedade pós-capitalista, onde ocorreu a desapropriação da burguesia, buscando acabar com a exploração do homem pelo homem. Mesmo com todos os crimes promovidos pelo stalinismo, essa primeira experiência socialista conseguiu transformar a Rússia semi-feudal dos czares em uma superpotência nuclear, que ameaçou a hegemonia mundial dos EUA, inclusive dando inicio ao programa espacial da humanidade, lançando o primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, e colocando o primeiro homem no espaço, o major Yuri Gagarin, em abril de 1961.  


“A Revolução Russa foi a primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro, uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de atitudes.
 
Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo. (…)
 
Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir uma sociedade igualitária.”
 
(Marly A. G. Vianna, professora de História da Universidade Federal de São Carlos; em “90 Anos da Revolução Russa”)

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