“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.” (Marilena Chaui)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Matéria da terceira série

STALINISMO E TROTSKISMO

"Um olhar retrospectivo sobre o século passado não pode se omitir sobre o trágico legado do stalinismo. A esquerda em especial não tem o direito de ignorá-lo. Tal herança pesa como um fardo sobre ela, mesmo já havendo uma alentada produção teórica de condenação dos anos em que Stalin esteve à frente da URSS, principalmente após o final dos anos 20 e até sua morte, em 1953. (...)

Para a esquerda, é necessário resistir à tentação de refugiar-se num tempo de ouro, na nostalgia de um tempo feliz, que não existiu, ao contrário. O stalinismo foi um tempo de terror, de esmagamento dos adversários pela violência, marcado pela ausência da política, ao menos se esta for entendida como o reino da liberdade, e não da força bruta.

O stalinismo foi a maior tragédia do povo russo e de todo o povo do Leste Europeu, afora as guerras. Não podemos mais ter receio de afirmar isso. Havia um temor de que isso parecesse diminuir o mérito da resistência do povo soviético ao nazismo. Não diminui. Os vestígios de stalinismo, indícios que sejam, são nefastos, atentados a qualquer idéia de vida democrática."

(Emiliano José; em "O stalinismo e sua trágica herança")

O stalinismo foi a mais grave degeneração que o marxismo sofreu, transformando a União Soviética(URSS) em uma ditadura totalitaria e burocratica, responsável pela morte de cerca de 20 milhões de soviéticos. Também foi responsável pela morte de milhares de pessoas, nos países do Leste Europeu onde o Exército Vermelho estabeleceu regimes socialistas após a Segunda Guerra Mundial.

O revolucionário bolchevique Leon Trotsky era opositor do stalinismo, motivo pelo qual foi expulso da URSS, em 1929. No exílio, organizou um movimento comunista dissidente, a IV Internacional. Acabou sendo assassinado por um agente stalinista em 1940, no México, onde estava exilado. Mas apesar disso, Trotsky defendia as mesmas políticas totalitarias que Stalin imprementou depois que assumiu o poder absoluto em 1929. A diferença entre trotskismo e stalinismo residia no fato de Stalin defender a política do socialismo em um só país, ou seja, os revolucionários bolcheviques deveriam construir o socialismo apenas na URSS, e aguardar que outras revoluções ocorressem. Já Trotsky defendia que a revolução fosse exportada para a Europa Ocidental, e somente a partir disso que o socialismo poderia ser construido. A tese de Trotsky era inconsequente, pois a Rússia estava arrasada devido a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil, e o fracasso da política do "comunismo de guerra". Não havia a menor condição dos soviéticos exportarem a revolução, até porque a revolução havia sido derrotada na Alemanha e na Hungria. E na Itália, a ascenção do fascismo promoveu a derrota do movimento operário revolucionário.

O autoritarismo de Trotsky

Em 1920-21, Leon Trotsky defendeu a militarização do trabalho e a estatização dos sindicatos, assim como uma política de industrialização acelerada baseada na expropriação do campesinato. Foi sempre um opositor da Nova Política Economica(ou NEP, na sigla em inglês), defendendo a construção do socialismo "por decreto", como Stalin acabou realizando.

"A discussão em torno do papel do Estado, sua relação com os sindicatos, a autonomia da classe operária, nada disso fora palavrório oco. Lênin, com a NEP, propunha agora um outro caminho, com maior liberdade para a cidade e o campo, recuperando o papel do mercado, compreendendo que o capitalismo ainda tinha fôlego para se desenvolver numa sociedade que ele acreditava estar caminhando para o socialismo. Trotsky tinha outra visão, que mais tarde, ironicamente, será integralmente adotada por seu mais visceral inimigo, Stalin. Está certo Deutscher quando afirma não haver praticamente nenhum aspecto do programa sugerido por Trotsky em 1920-21 que Stalin não tenha usado durante a industrialização acelerada da década de 1930. Adotou o recrutamento forçado, subordinou os sindicatos, estimulou a disputa de produção entre os trabalhadores, na linha do taylorismo soviético defendido por Trotsky."

(Emiliano José; em "Trotsky: do pomar para a Revolução")


A política autoritária defendida por Trotsky, foi derrotada por Lenin, que defendeu a aprovação da Nova Política Economica(ou NEP, na sigla em inglês). Mas infelizmente Stalin acabou ressuscitando essa política autoritária em 1929, após derrotar Trotsky e demais adversários. Portanto a verdade que muitos comunistas insistem em não enxergar, é o fato de Trotsky ter sido um dos primeiros a defender políticas extremamente autoritárias entre os bolcheviques(como por exemplo, a estatização dos sindicatos e a militarização do trabalho), motivo pelo qual foi criticado pelo revolucionário Vladimir Lenin.

"Trotsky foi o principal defensor da fusão dos sindicatos ao Estado e, inclusive, a sua militarização. Ele aplicou seus métodos "revolucionários" quando foi responsabilizado pela reorganização dos serviços de transporte. Assumindo o controle absoluto do Comitê Central de Transporte, decretou imediatamente "estado de emergência" nas ferrovias, destituiu os dirigentes eleitos dos sindicatos e colocou todos os operários sob lei marcial.

Em 16 de dezembro de 1919, Trotsky apresentou no Comitê Central do Partido Bolchevique a sua tese "Sobre a transição entre a guerra e a paz", na qual reafirmou a necessidade de militarização dos sindicatos russos. Ele defendeu novamente as suas posições no IX congresso do PCRb. Na ocasião afirmou ele: "As massas trabalhadoras não podem vaguear através da Rússia. Devem ser enviadas para aqui e para ali, nomeadas, comandadas exatamente como soldados (...) O trabalho obrigatório deve atingir a sua maior intensidade durante a transição do capitalismo para o socialismo (...) É preciso formar patrulhas punitivas e pôr em campos de concentração os que desertam do trabalho". E concluiu: "O Estado Operário possui normalmente o direito de forçar qualquer cidadão a fazer qualquer trabalho em qualquer local que o Estado escolha."

Contra as posições autoritárias de Trotsky, Lênin escreveu os artigos "Sobre os Sindicatos, o momento atual e os erros de Trotsky" e "Mais uma vez sobre os sindicatos, o momento atual e os erros dos camaradas Trotsky e Bukharin". Afirmou ele: "os sindicatos são uma organização da classe dirigente, dominante e governante. Mas não são uma organização estatal, não são uma organização coercitiva, são uma organização educadora, uma organização que atrai e instrui, são uma escola, escola de governo, escola de administração, escola de comunismo". Portanto, não poderiam ser transformados em quartel ou prisão.

Lênin negou a tese trotskista de que a defesa dos interesses materiais e espirituais da classe operária não deveria ser de incumbência dos sindicatos em um Estado operário. Para ele isto era um grave erro. Afirmou Lênin: "O camarada Trotsky fala de 'Estado operário'. Permitam-me dizer que isto é pura abstração (...) comete-se um erro evidente quando se diz: Para que e ante quem defender a classe operária, se não há burguesia e o Estado é operário? Não se trata de um Estado completamente operário, aí está o xis do problema (...) Em nosso país, o Estado não é, na realidade, operário, e sim operário e camponês (...) Porém há mais alguma coisa (...) nosso Estado é operário com uma deformação burocrática (...) Pois bem, será que diante desse tipo de Estado (...) nada têm os sindicatos a defender? Pode-se dispensá-lo na defesa dos interesses materiais e espirituais do proletariado organizado em sua totalidade? Essa seria uma opinião completamente errada do ponto de vista teórico (...) Nosso Estado de hoje é tal que o proletariado organizado em sua totalidade deve defender-se, e nós devemos utilizar estas organizações operárias para defender os operários em face de seu Estado e para que os operários defendam nosso Estado"".

(Augusto César Buonicore; em "Lenin, os sindicatos e o socialismo")

Por isso afirmo que o trotskismo não é alternativa para a construção de um socialismo sem os vicios do stalinismo, mas sim o outro lado da mesma moeda. Os marxistas que defendem a luta revolucionária do proletariado para derrubar o capitalismo e construir uma nova sociedade, onde não mais exista a exploração do homem pelo homem, devem romper com essas duas concepções e devem buscar resgatar o pensamento marxista, renovando-o segundo a realidade da luta de classes no século XXI.

Para começar, devem recordar do revolucionário marxista Victor Serge, opositor do stalinismo, que mesmo apoiando a Revolução Russa e o bolchevismo, reconheceu que erros foram cometidos e afirmou que "as novas lutas anticapitalistas deverão assumir novas formas no futuro". Os dogmaticos de plantão, que acreditam ainda estarem vivendo no começo do século XX, deveriam acordar para a realidade a partir dessa afirmação de Victor Serge.

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